‘A Missão’ procura provocar desconforto para que público possa pensar

“É desconfortável ver este espetáculo. Ninguém fica confortável a ver o espetáculo e acho que essa é a beleza de [Heiner] Müller, porque acho que ele está a tentar provocar a revolução em cada um de nós”, defendeu a cenógrafa Ângela Rocha.

“A beleza deste espetáculo é ele não se fechar nele próprio e conseguir ativar o espectador da mesma forma que ativou” este grupo, que quer “provocar desconforto” e “acordar” mentes, acrescentou a cenógrafa sobre a obra que tem encenação coletiva do Teatro da Cidade.

“Às vezes estamos um bocadinho adormecidos, porque estamos nesta coisa de seguir o que nos é dito, porque temos o papel bom e não há esse lugar tão concreto do bem e do mal, do certo e do que não está, e Müller levanta esses preconceitos e normas instaladas”, defendeu Ângela Rocha.

E se o espectáculo “provocar desconforto, se isso for conseguido, é uma grande conquista”, no entender do ator João Reixa que sobe ao palco com Nídia Roque, Bernardo Souto, Danilo da Matta e Guilherme Gomes, o único ausente do ensaio e da conferência de imprensa de hoje, para apresentação da peça, a que se juntou a cenógrafa Ângela Rocha.

O texto foi escolhido com os participantes de um clube de leitura realizado em 2022 no Teatro Viriato, em Viseu, depois da leitura de quatro autores, revelou a companhia.

‘A Missão’, de Heiner Müller, foi o que “ficou a ressoar” em todos, de uma forma “muito inquietante, porque o texto em si é muito difícil” e “é também muito sobre o que se vive agora, é muito atual e por isso seria desafiante”, assumiu a atriz Nídia Roque.

A partir do texto que fala “sobre a legitimidade de três pessoas europeias irem fazer uma revolução de escravos na Jamaica, isto, logo a seguir à revolução francesa”, leva a “uma mistura de várias temáticas, com críticas ao capitalismo, e questiona” diversos assuntos contemporâneos.

Nídia Roque questionou “o que é uma revolução”, já que “uma das frases do texto é ‘a revolução é a máscara da morte, a morte é a máscara da revolução’ e, neste momento, isso faz todo o sentido, porque se combate, porque se apela a uma ideia política”.

“De que lado nos colocamos nestas revoluções? É uma ideia que nos assombra muito neste processo. O que é o ato político? Como é que a revolução se faz hoje em dia? O que é a ética republicana? São os bens comuns à frente dos interesses privados?”, interrogou.

Questões que João Reixa contextualizou para o dia de hoje, em que o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, pediu a demissão, ou seja, um texto em que “a atualidade é muito presente” e “isso só pode questionar as posições que cada um toma e as consequências que as ações individuais têm” no mundo.

O ator Bernardo Souto dá o exemplo de questões como a “cor da pele e a legitimidade, nos dias que correm, de uma pessoa de cor branca poder interpretar um papel que foi, possivelmente, escrito para uma pessoa de cor negra”.

“Da mesma forma que uma pessoa negra não sente que seja a voz de todas as pessoas negras, não se sente legítima nesse papel, também uma pessoa branca, se calhar, não sente na pele essa luta, o levantar dessa bandeira. Mas até que ponto não se pode juntar à crença e erguer uma bandeira?”, questionou o ator.

As questões que “são levantadas durante a peça” e que “também foram levantadas no grupo de trabalho” durante a preparação do espectáculo não têm resposta. Mas impõem pensamento. “A peça não dá resposta nenhuma, só levanta questões” como, por exemplo, “de quem é o rosto da escravatura?”, prossegiu Bernardo Souto.

“Cada pessoa vai ter a sua leitura do espectáculo, segundo a sua biografia e as suas referências e a sua ideologia política. Ainda assim não deixamos de colocar o nosso ponto de vista sobre aquilo que pensamos no mundo”, destacou.

“Fazer este texto sem ser provocador é falhar uma oportunidade de convocar o público a ser um agente político também e o que nós quisemos, foi inquietar, como nós próprios nos inquietamos com este texto”, assumiu Nídia Roque.

Uma inquietação que rapidamente ganhou vida na partilha de ideias com os jornalistas e que, assumiram, “é muito isto” que querem “passar para o público, este questionamento das consequências das ações, se é que há ações e não só conversa”.

No meio da peça há um monólogo, o “monólogo do elevador” que, segundo o seu intérprete, Danilo da Matta, “é como se fosse uma ponte para os acontecimentos desta peça” e, no seu entender, “é uma metáfora brutal para tudo” o que se passa em palco.

Um palco que tem um cenário “todo ele vermelho”, opção da cenógrafa Ângela Rocha, que quis que “fosse a única cor, porque seria mais forte do que alimentar esta diferença do branco e do preto”.

“Devemo-nos concentrar no sangue, que é comum e que é a nossa verdadeira cor, de todos, e implica a questão da vida e da morte e, no teatro, o vermelho tem uma conotação muito forte e, neste caso, achei que tinha de ser a única cor em palco”, defendeu Ângela Rocha.

Assim como as “escadas [infinitas] de Escher”, que fazem parte do cenário, acrescentou Ângela Rocha, porque “não se sabe o princípio nem o fim, é uma desconexão entre as partes, que também é muito comum no texto”.

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