Amarelo Silvestre leva a palco ‘Desempenho’ da mulher profissional

 

“Essa dificuldade que temos como mulheres, intérpretes, mães, criadoras, cidadãs, artistas, diretoras artísticas das estruturas e dos projetos que desenvolvemos e queremos apresentar, levou-nos a um objeto híbrido e a refletir sobre esta dificuldade de ser ‘multitask'”, explicou uma das duas diretoras artísticas da companhia.

Rafaela Santos contou à agência Lusa que, atualmente, esta dificuldade “é um bocadinho transversal a toda a sociedade, mas, mais uma vez, no caso das mulheres, mães e artistas no Portugal de hoje, ainda se torna mais acutilante esta dificuldade de combinação e de acumulação”.

“E nós deixámos que essa dificuldade transparecesse e passasse para o palco para o objeto artístico, ou seja, as pessoas vão ver um objeto que pretende ser uma peça de teatro e dança contemporânea, mas que não consegue ser”, contou.

Isto, porque, acrescentou, “atravessam constantemente pensamentos que interferem diretamente no desempenho e que se vão acumulando e que vão distorcendo e deturpando uma linguagem artística mais depurada que inicialmente se queria criar”.

“É um desafio também, para experimentar linguagens um bocadinho diferentes daquelas a que estávamos habituados e que, de repente, [assimilam] os telefonemas constantes, os ‘emails’, as propostas, os orçamentos, as candidaturas, os problemas domésticos/maternidade e educação, entre o trabalho de criar um objeto artístico”, assumiu.

Tudo isto — continuou -, a juntar ao facto da mulher profissional e mãe “também ser cidadã numa sociedade a colapsar” e “artista, perante as consequências diretas do desinvestimento na cultura e no desertificar do interior”.

“Nós sentimos isso em Canas de Senhorim [concelho de Nelas, no distrito de Viseu], que é onde estamos sediados, e tudo isto vai contaminando as nossas criações, este Portugal que estamos a construir e a inclinar cada vez mais para o litoral. E qualquer dia afunda-se”, gracejou.

Apesar de o “Desempenho” “ter um foco muito no feminino”, Rafaela Santos admite que a Amarelo Silvestre “não queria balizar isso no feminino, mas sim a partir dessa visão feminina, até porque há um intérprete masculino”.

“Desempenho” é o espetáculo “que deriva da instalação performativa, ‘Sofá em mi maior'”, que se estreou em junho de 2021, e deu a conhecer as distintas relações existentes entre mulheres de diferentes idades e em contextos de vida desiguais, com o seu sofá.

Neste sentido, Rafaela Santos admitiu que “esta última etapa do projeto, que culmina com ‘Desempenho’, é também uma forma de provocar e convocar esse pensamento crítico” nas pessoas, por parte dos artistas em cena.

“É lançar no palco as múltiplas perspetivas que dentro de um coletivo existem, porque as palavras são organizadas pela Lígia [Soares], mas os textos têm vários autores e refletem muitas preocupações, onde algumas pessoas se vão rever e outras nem por isso”, apontou.

“Desempenho” teve o apoio do Viseu Cultura, programa cultural da Câmara Municipal de Viseu, dentro do projeto “Sofá em Mi Maior”, e vai estrear-se em 25 de fevereiro, sexta-feira, no auditório do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) desta cidade.

A direção artística é de Rafaela Santos e Lígia Soares, que também sobem ao palco, com Mário Alberto Pereira.

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