Angela Davis, Maya Angelou e Stanislaw Lem nas novidades da Antígona

Numa apresentação conjunta com a Orfeu Negro, a Antígona Editores Refratários, anunciou 13 das 24 novidades editoriais a serem publicadas em 2023, a começar com o romance “A promessa”, de Silvina Ocampo, e “O inquilino quimérico”, de Roland Topor, já editados este mês.

“A promessa” foi o labor dos últimos dias da escritora argentina Silvina Ocampo, já atormentada pela doença, publicado postumamente em 2011, enquanto “O inquilino” é um clássico do humor negro com recortes kafkianos, que foi adaptado ao cinema por Roman Polanski, em 1976.

Segundo Lurdes Afonso, da Antígona, que prometeu “livros para continuar a deitar a língua de fora ao mundo”, numa alusão à “caraça” que representa a editora, vai manter-se a aposta em Stanislaw Lem – escritor polaco de ficção científica, de quem já foi publicado “Solaris” -, com o lançamento em fevereiro do romance “A voz do amo”, um livro filosófico em torno da sobreinterpretação e das limitações do conhecimento, e, em outubro, de “Memórias encontradas numa banheira”.

Em abril chega “Tempo de erros”, de Muhammad Chukri, sequela de “Pão seco”, continuando o ciclo autobiográfico do autor, neste caso centrado na sua aprendizagem da escrita, aos 20 anos.

A editora destaca, em maio, o lançamento de um inédito em Portugal, a versão integral de “O homem que viveu debaixo da terra”, de Richard Wright, autor de “Native son”, e figura tutelar de James Baldwin, que deu voz à raiva contida da população negra.

Logo no mês a seguir, sairá “Uma autobiografia” de Angela Davis, com prefácio da autora à edição norte-americana mais recente, publicada em 2022. Esta publicação segue-se a “A liberdade é uma luta constante” e “As prisões estão obsoletas?”, também editadas pela Antígona.

Ainda no mesmo mês, será lançada uma obra entre a ficção e o ensaio antropológico, de Nastassja Martin, intitulado “Acreditar nas feras”, vencedor de vários prémios, que narra o encontro brutal entre uma antropóloga e um urso na floresta siberiana, em 2015, que não a mata, mas desfigura-a.

“Terra queimada”, do critico de arte e professor de teoria de arte Jonathan Crary, é um ensaio sobre os efeitos destrutivos da era digital ao mundo pós-capitalista, que será publicado em julho, o mesmo mês em que é reeditado o, há muito esgotado, “Marcas de Batom. Uma história secreta do século XX”, da autoria do critico musical Greil Marcus, uma viagem à descoberta da origem da força, do poder e do niilismo dos Sex Pistols.

Em agosto chega outro dos grandes destaques da editora, “Reúnam-se em meu nome”, o segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, que se sucede a “Sei porque canta o pássaro na gaiola”.

Outubro chega com aquela que é a “grande aposta para este ano” da editora, o romance de estreia da escritora espanhola Layla Martinez, “Caruncho”, um livro com um “estilo de escrita fabuloso”, que aborda os espetros e as questões de classe, a violência e a solidão.

“Autodefesa. Uma filosofia da violência”, de Elsa Dorlin, um ensaio político da autodefesa e a sua genealogia, uma coletânea de poemas de Lawrence Ferlinghetti, intitulada “Uma manta de retalhos da mente”, e “A pequena comunista que nunca sorria”, de Lola Lafon, “nome forte da rentrée”, inédito em Portugal” são as novidades de novembro.

Este último, é um livro sobre Nadia Comaneci – ela é a “pequena comunista que nunca sorria” — que aborda temas como infância sacrificada, adolescência comprometida e instrumentalização das mulheres em regimes despóticos.

A Orfeu Negro, que se tem destacado pela publicação de obras fundamentais dos estudos de estudo do género, feminismo, racismo, queer e pós-colonialismo, lançou em janeiro “Um feminismo decolonial”, de Françoise Vergès, e prepara-se para editar em março “Welcome to paradise”, do ilustrador, performer visual e cartoonista António Jorge Gonçalves, que aqui partilha as páginas dos seus diários gráficos, com desenhos de turistas em Lisboa.

Ainda em março, a editora lança também um livro de Angela Davis, autora que partilha com a Antígona, intitulado “Mulheres, raça e classe”, e cujo âmbito se insere mais na filosofia da Orfeu Negro, explicou Ana Cepeda, da editora.

Trata-se de uma obra seminal e revolucionária, uma reflexão obrigatória dos estudos feministas, que faz convergir as lutas feministas com as lutas antirracistas, segundo a editora.

Para abril, está prevista a publicação de “Corpos que contam”, de Judith Butler, autora de “Problemas de género”, um estudo sobre a teoria feminista e queer, que reflete sobre como relacionar a materialidade do corpo com a performatividade do género, obra que a editora espera conseguir publicar simultaneamente com o resto do mundo.

Em junho, chega às livrarias “Tudo do amor”, de Bell Hooks, uma das suas obras mais populares integra a trilogia do amor — e uma das mais pessoais também, em que a autora desconstrói noções e representações do que habitualmente se designa por “amor”, mascarando relações de poder e dominação.

“Vera Mantero”, de vários autores, é a proposta do mês seguinte, um livro dedicado à bailarina e coreógrafa, que aborda o processo e o modo de fazer de Vera Mantero, sempre ligado ao questionamento estético e ético da vida.

Uma novidade que esta editora vai lançar em setembro é o livro “Puta feminista”, de Georgina Orellano, trabalhadora sexual, mãe, ativista e secretária geral do Sindicato de Trabalhadorxs Sexuais da Argentina.

Nesta obra, a autora descreve na primeira pessoa, os códigos da rua, as interações com homens e a violência da clandestinidade.

Em outubro, a Orfeu Negro iniciará a publicação da obra de Audre Lorde, com “Sister outsider”, ensaios e discursos sobre sexismo, racismo, homofobia, invisibilidade e sobretudo resistência; e, em novembro, chega “Espelho mágico. Uma viagem pela história do cinema”, proposta do crítico de cinema, programador e realizador Francisco Valente, que reflete o seu percurso pessoal, feito de visionamentos, entrevistas e festivais.

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