As duas Jelenas croatas que promovem a literatura em português

 

Jelena Bulic, de 39 anos, é desde julho responsável por responder às perguntas dos cidadãos ao Parlamento Europeu, e quando se trata de portugueses, responde em português, uma das oito línguas que fala fluentemente.

No currículo, tem também a tradução de escritores brasileiros inéditos na Croácia, incluindo Lima Barreto (1881-1922), autor negro que só em anos recentes foi revalorizado no Brasil.

Na próxima semana, um dos contos do escritor traduzido por Jelena, “O homem que sabia javanês”, vai ser lido pelo ator croata Zoran Cubrilo, na rádio nacional da Croácia, num programa dedicado à tradução da literatura mundial.

A história do homem que “finge que fala javanês para progredir na vida” e acaba cônsul do Brasil vai ser ouvida pela primeira vez na Croácia, 99 anos depois da morte do escritor, disse à Lusa Jelena Bulic, que lamenta que os autores brasileiros não sejam mais conhecidos no país.

“Quando comecei a aprender português, não havia muita literatura portuguesa ou brasileira traduzida para croata, e ainda hoje não há muitos dos meus escritores preferidos”, diz.

A culpa da paixão pela língua portuguesa é de Fernando Pessoa: tinha “16 ou 17 anos” quando descobriu uma antologia do poeta português e tornou-se numa ‘groupie’.

“Era a adolescência, eu ouvia música ‘punk’, achava que era rebelde, e escrevi versos de Pessoa com lixívia em T-shirts pretas”, ri-se. Uma, recorda, tinha estampado “Pouco me importa”, do heterónimo Alberto Caeiro, uma frase adequada à ‘angst’ juvenil.

Jelena decidiu aprender a língua, mas “no final dos anos 90, fora da universidade, não havia aulas de português”.

A adolescente acabaria por conhecer uma das pioneiras da tradução da literatura portuguesa na Croácia, Tanja Tarbuk, que lhe propôs aulas privadas.

Durante dois anos, “ia de bicicleta a casa dela todas as semanas, do outro lado de Zagrebe, demorava 45 minutos”.

A paixão de Jelena pela língua tornou-se um caso sério. Quando chegou à universidade, onde também estudou literatura portuguesa, “já tinha lido muito do que havia para ler”, incluindo José Cardoso Pires, Agustina Bessa Luís e Nuno Bragança.

O “desvio” para a literatura brasileira chegou com Jorge Amado, “se calhar por causa das telenovelas” que passavam na televisão croata, brinca, mas foi a descoberta do modernismo brasileiro que a levou à tradução, publicando em 2013 o livro “Parque Industrial”, de Patrícia Galvão.

“Estava tão enamorada desse livro que o traduzi para mim”, recorda. “Foi uma mulher extraordinária, se fosse americana era famosa em todo o mundo”, defende Jelena, que já este ano apresentou uma conferência em Bruxelas sobre a escritora.

A doutorada em Literatura chegou ao Luxemburgo em 2014, para trabalhar como tradutora no Parlamento Europeu. “Na entrevista havia uma funcionária portuguesa. Acho que ajudou”, brinca.

Desde então, voltou a traduzir literatura apenas para si – agora para poder ler à filha os livros infantis de Clarice Lispector -, mas tem várias traduções antigas ainda por publicar.

Também foi Pessoa que levou Jelena Pesorda, a segunda Jelena desta história, a inscrever-se no curso de literatura portuguesa na universidade. Nessa altura, decidiu meter-se num autocarro e ir passar um verão a Sintra, para tomar conta de crianças.

“Quando vi as vinhas, as laranjeiras, os velhotes sentados em frente às casas, parecia que tinha voltado a casa, depois de uma viagem tão longa, fiquei completamente apaixonada por Portugal”, recorda a funcionária do Serviço das Publicações da União Europeia, hoje com 43 anos.

Regressaria ao país em 2005, para trabalhar na Embaixada da Croácia em Lisboa, onde fez uma especialização em literatura portuguesa moderna e contemporânea, e o gosto, sobretudo pela literatura africana, deixou semente.

Por proposta sua, em 2013 foi publicada a primeira tradução para croata (e até hoje, a única) de um livro da escritora moçambicana Paulina Chiziane, que este ano recebeu o Prémio Camões (“Niketche: Uma História de Poligamia”). Graças a si, a escritora moçambicana já foi tema de uma tese sobre feminismo literário africano, publicada na Croácia, em 2019.

“As editoras na Croácia não podem sobreviver sem apoios e não querem arriscar muito com nomes que não são muito conhecidos, mas está a melhorar, já há muito mais literatura em língua portuguesa”, conta a “segunda Jelena”.

“Entre as duas, cobrimos toda a literatura lusófona”, brinca Jelena Bulic.

Pesorda, que chegou ao Luxemburgo em 2014, diz que foi o português que a salvou, num país onde vivem mais de 100 mil portugueses.

“Eu não falava francês, e nas ruas, nos supermercados, em todo o lado se falava português, e percebi que podia muito bem safar-me com esta língua”, ri-se. Vício de antiga revisora, admite que os erros nos anúncios em português nos serviços públicos, incluindo em hospitais, a irritam.

“Acho que o português merecia um estatuto melhor, tendo em conta o número de falantes aqui no Luxemburgo”, defende.

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