Conversas, concerto e exposição celebram centenário de Eduardo Lourenço

Intitulado “Eduardo Lourenço, uma vida escrita”, este encontro promove uma conversa com leitores, amigos e especialistas em torno da obra de Eduardo Lourenço e alguns dos seus temas fundamentais.

O colóquio “parte desta ideia de vida escrita, que é uma ideia que Eduardo Lourenço desenvolve a propósito de Montaigne, que foi uma grande referência da sua obra, que é, a meu ver, uma designação perfeita do núcleo da obra de Eduardo Lourenço”, disse à agência Lusa o investigador Pedro Sepúlveda, coordenador do colóquio.

“Eduardo Lourenço disse sobre Montaigne que ‘Montaigne não sabia quem era e para o saber decidiu escrever-se, tendo convertido o espanto sem fim deste encontro com a sua própria existência em vida escrita’. Esta descrição é uma descrição perfeita da própria obra ensaística de Eduardo Lourenço, que conjuga essa dimensão pessoal e universal de uma forma sem paralelo no campo do ensaio em língua portuguesa”, afirmou Pedro Sepúlveda.

O colóquio tem em vista quatro temas diferentes, o primeiro dos quais é a figura mítica de Fernando Pessoa.

Eduardo Loureço escreveu muitos ensaios sobre Pessoa, que foram agora reunidos nos volumes das “Obras Completas” da Gulbenkian, e que totalizam mais de mil páginas sobre este poeta português que “foi a sua grande paixão, a sua grande obsessão”.

“A sua escrita sobre Pessoa tem duas fases marcantes: numa primeira, em torno da publicação do livro ‘Pessoa revisitado’, em 1973, Eduardo Lourenço promove uma defesa da singularidade de Pessoa perante críticos que o reduziam a certos pressupostos”.

Hoje em dia, isto não é imediatamente percetível, mas tratava-se, na altura, de combater alguma resistência dos leitores perante a obra de Pessoa, esclarece Pedro Sepúlveda.

Numa segunda fase, a partir dos anos 1980, Eduardo Lourenço escreve sobre aquilo que se tornou entretanto “uma figura mítica, a figura mítica de Pessoa, que ganhou um estatuto muito diferente do que tinha inicialmente, e sobre esse modo como um poeta tão difícil, no entender de Eduardo Lourenço, que abala e questiona fundamentos da nossa existência, se tornou entretanto um mito da nossa cultura”.

Este é outro tema que é transversal na obra de Eduardo Lourenço, a questão do mito e da cultura, que leva a outro tema, o tema Portugal.

“Eduardo Lourenço fala sobre esta questão do mito, como decisiva para um certo imaginário cultural que nós partilhamos sobre a pátria, sobre a nacionalidade, e que enforma o nosso olhar, enquanto portugueses, sobre o mundo, e esse é outro dos temas marcantes da sua obra”, que terá uma secção do colóquio a ele dedicado.

É neste âmbito que será apresentado o último volume das “Obras Completas”, no projeto da Fundação Calouste Gulbenkian com a colaboração da editora Gravida, dedicado ao “Labirinto da Saudade”, um dos títulos mais famosos de Eduardo Lourenço.

“Quase todos os volumes das ‘Obras Completas’ retomam títulos que já foram marcantes de ensaios de Eduardo Lourenço, mas integram um conjunto mais amplo de ensaios, do que era conhecido até hoje”, adiantou o investigador, especificando que alguns são textos que o ensaísta deixou inéditos, que resultam de um trabalho feito junto do arquivo de Eduardo Lourenço, e outros que saíram em publicações de pouca circulação.

Outro dos temas do colóquio é a relação entre a poesia e a modernidade, mais um “grande tópico na obra ensaísta de Eduardo Lourenço, que via a poesia como leitura do mundo, como forma de iluminação, esclarecimento do mundo, instância privilegiada para ler os fundamentos do mundo, e esse tipo de leitura condiciona todo o seu modo de leitura dos poetas modernos, que é qualquer coisa que o ocupou de forma constante”.

Por último, o tema vida e pensamento, que retoma o mote do colóquio e procura pensar essa “relação permanente entre a vida entendida, por um lado, enquanto experiência pessoal, e por outro, enquanto instância universal e o pensamento que a ela se associa”.

O professor e investigador da Universidade Nova destaca, a este propósito, que a ensaística de Eduardo Lourenço contrasta com a escrita académica, sendo uma “ensaística que parte desta relação com a vida, com a vida pessoal, não de um modo biográfico, mas há um cunho pessoal em tudo o que escreve”.

“Ele disse, por exemplo, numa entrevista: ‘A minha maneira de falar de mim é falar através de Fernando Pessoa’. Isto é surpreendente, porque quando lemos os textos sobre Pessoa, lemos considerações muitíssimo importantes, decisivas mesmo, na fortuna crítica de Pessoa, sobre a poesia de Pessoa, mas, na verdade, ele muitas vezes está a falar dele próprio, no sentido em que são questões que o acompanharam toda a vida. Por exemplo, o caráter trágico da existência e a incompletude da identidade humana, só para referir duas questões que marcaram a sua obra”.

Todos os temas do colóquio, que se articulam e estão associados uns aos outros, vão ser debatidos em mesas de conversas, fugindo ao modelo mais tradicional de apresentação de comunicações.

Haverá um momento de leitura da escritora Lídia Jorge, intitulada “Vislumbre de um instante”, que será uma leitura pessoal e ao mesmo tempo literária da obra de Eduardo Lourenço, uma conferência plenária do professor Roberto Vecchi sobre “O impensado em Eduardo Lourenço” e, por último, uma peça do compositor Arnold Schönberg, “A Noite Transfigurada”, referência maior da chamada Segunda Escola de Viena, que era uma das obras do reportório clássico que Eduardo Lourenço mais apreciava, a ser interpretada pela Orquestra Gulbenkian.

Associada ao colóquio, será inaugurada uma exposição de retratos de Eduardo Lourenço, da autoria do fotógrafo Vitorino Coragem, intitulada “Ver é Ser Visto”, com o apoio da editora Gradiva. Esta série resultou de uma sessão fotográfica decorrida em março de 2015 no Cais do Funchal, no âmbito do Festival Literário da Madeira.

Entre os participantes dos vários painéis, contam-se nomes como os dos professores, investigadores e jornalistas António Feijó, Rita Patrício, Richard Zenith, Carlos Mendes de Sousa, Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós, João Dionísio, Margarida Calafate Ribeiro, Clara Caldeira, João Tiago Lima, José Carlos de Vasconcelos, Isabel Lucas e Pedro Sepúlveda, além do gestor Guilherme d’Oliveira Martins, da administração da Gulbenkian, sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras desde o ano passado, quando passou a ocupar a cadeira que antes pertencera a Eduardo Lourenço.

Eduardo Lourenço nasceu a 23 de maio de 1923, em S. Pedro de Rio Seco, Guarda, e morreu no dia 01 de dezembro de 2020, em Lisboa.

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