Encenador Frank Castorf reúne Racine e Artaud no palco do São João

“Quatro horas de teatro furiosas, febris, grotescas, compósitas, desiguais”, escrevia o Le Monde aquando da estreia da peça em França, em dezembro do ano passado, dois meses passados sobre a primeira récita do espetáculo, que aconteceu em Lausana, na Suíça.

A peça parte de ‘Bajazet‘, tragédia de Jean Racine estreada em 1672, sobre um incidente real que ocorreu no Império Otomano cerca de quatro décadas antes, e junta-a a “O Teatro e a Peste”, do poeta francês Antonin Artaud.

Artaud escreveu em 1934 o texto — primeiro capítulo de “O Teatro e o seu Duplo” -, que Castorf aqui aborda, como uma “funesta comemoração da grande peste que atinge Marselha em 1720”, segundo as francesas Edições Parenthèses, que recuperaram a obra este ano no contexto da pandemia de covid-19.

Para Artaud, “a peste é o sinal de uma desordem mais vasta do que o emaranhado de corpos putrefactos“, resume a editora na sinopse do livro.

“Com a sua leitura cruzada de Racine e Artaud, Frank Castorf, histórico diretor da Volksbühne de Berlim, propõe-nos um teatro da palavra, entre o poeta barroco que desenha com a linguagem o mecanismo que há de libertar o desejo e o demónio que a estilhaça e reinventa para assim se reconstruir”, pode ler-se na página do TNSJ.

Segundo a descrição do Festival de Outono parisiense, “ao combinar Racine e Artaud, Castorf ilumina aquilo que estes dois poetas têm em comum: a palavra dita, a âncora do teatro, como o lugar crucial onde o coração inflamado dos seus trabalhos se desenrola”.

A peça, que marca a estreia de Castorf em Portugal, tem interpretação de Jeanne Balibar, Jean-Damien Barbin, Adama Diop, Mounir Margoum, Claire Sermonne e Andreas Deinert, sendo falada em francês, com legendas em português.

Nascido na Berlim Oriental de 1951, Castorf começou por trabalhar como dramaturgo antes de passar a encenador no Teatro de Brandenburgo. Na temporada de 1992/93, assume a direção artística da Volksbühne (teatro do povo ou popular, em tradução literal), em Berlim, “tornando-a numa instituição de renome mundial, que criou uma influência duradoura no teatro de língua alemã, com digressões pelo mundo”, segundo a biografia do Berliner Festspiele.

A peça vai estar em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, nos dias 12 e 13 de março do próximo ano.

 

 

 

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