Escritor Borges Coelho espera que Prémio Oceanos o leve a mais leitores

“O valor que vejo é sobretudo o da visibilidade que dá e da possibilidade de chegar a mais leitores, que é a segunda parte da literatura, que complementa a escrita”, referiu à Lusa o historiador que deu corpo ao “Museu da Revolução”, onde diferentes personagens de diferentes lugares convergem para Moçambique, um romance publicado em 2021.

“O livro não tem um tema, são temas que se vão encadeando uns nos outros” abordando a história do país, suas ligações a outras geografias e identidades.

Nem por isso esperava ganhar, disse, porque a literatura “não é coisa que se possa comparar em termos objetivos” e porque no Prémio Oceanos 2022 – a que concorreram 2.452 títulos – “a latitude é grande” quanto aos estilos e há uma sucessão de júris até final.

“Não é coisa que se espere objetivamente que aconteça”, referiu, no mesmo anfiteatro do Centro Cultural Brasil Moçambique em que este ano o prémio foi anunciado.

A obra foi a segunda classificada numa edição em que o júri escolheu para primeiro lugar o livro de crónicas ‘Líbano Labirinto’ da escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho e, para terceiro, ‘O som do rugido da onça’, romance da brasileira Micheliny Verunschk, que recorda a história de duas crianças indígenas raptadas no Brasil, no século XIX, vencedor do Prémio Jabuti deste ano, na categoria Romance Literário.

Isabel Lucas, jornalista e curadora do prémio, apontou a escolha de Maputo como “um estímulo para editoras, escritores e também para quem tem o poder de facilitar políticas de circulação de livros e autores nesta língua”.

“É muito difícil haver circulação de livros entre diferentes países de língua portuguesa”, disse, exemplificando com o facto de a maior parte dos livros finalistas do prémio “só estarem publicados num país”.

Moçambique é um dos casos paradigmáticos, apontou.

“Quando chego aqui e falo com vários editores que me dizem que quem vende 200 livros em Moçambique é um ‘best-seller’, isso dá-nos uma dimensão das dificuldades em fazer com que os livros circulem”, referiu Isabel Lucas.

Um contexto que faz com que o Prémio Oceanos represente “mais do que um prémio” e pretenda ser “uma conversa para que a língua portuguesa seja menos estranhada nos países onde ela é escrita e feita”.

Deu-se a coincidência, referiu, de haver um autor premiado no mesmo país do anúncio, a par de um programa cultural e conversas entre autores – roteiro que a organização espera repetir noutros países em próximas edições.

Em Maputo, Borges Coelho já prepara outra obra, num “trabalho continuado, de todo os dias”, disse à Lusa.

“Tenho um outro projeto que talvez neste ano que vem surja”, acrescentou, mas sem adiantar detalhes: “Não é que o queira esconder, mas ainda não estou muito claro de como vai ser”.

Participaram no júri final do Prémio Oceanos 2022, que leu e avaliou os 10 livros finalistas para escolher os três vencedores, os professores, escritores, ensaístas, curadores, críticos e jornalistas Cristhiano Aguiar, Guilherme Gontijo Flores, Joselia Aguiar e Júlia de Carvalho Hansen, do Brasil, o moçambicano Artur Bernardo Minzo, e as portuguesas Ana Cristina Leonardo e Helena Vasconcelos.

O valor total do prémio é de 250 mil reais (cerca de 45,3 mil euros na cotação atual), sendo 120 mil reais (21,8 mil euros) destinados ao vencedor do primeiro lugar, 80 mil para o segundo (14,5 mil euros) e 50 mil para o terceiro (nove mil euros).

O Prémio Oceanos é realizado por via da Lei de Incentivo à Cultura, pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo do Brasil, e conta com o patrocínio do Banco Itaú e da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas da República Portuguesa, assim como com o apoio do Itaú Cultural, do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde e do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, além do apoio institucional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

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