Exposição de fotografia mostra olhar das crianças da Quinta do Loureiro

Idealizado e concebido pela It’s About Impact, empresa sem fins lucrativos de organização de eventos, este trabalho tem como objetivo melhorar as perspetivas de futuro da população da Quinta do Loureiro, através da pluridisciplinaridade das artes.

A ideia é contar as histórias do bairro recorrendo a diversas áreas artísticas, da fotografia à música, passando pela escrita criativa, audiovisual, arte urbana e artes performativas.

“Criámos este projeto a partir da ideia de que as artes e a cultura podem ser uma forma de inclusão social. Começámos a pensar em que bairros de Lisboa poderia funcionar e achámos que o bairro do Loureiro se enquadrava”, explicou à Lusa Jwana Godinho, a mentora do projeto, com formação e experiência na área do entretenimento e das artes.

A ideia era trabalhar com vários elementos e como uma população diversa, que incidiu particularmente nos jovens, nos idosos e nos desempregados.

“Com a intervenção de artistas, trabalhámos sobre algumas métricas em termos de abandono escolar, isolamento e futuro”, contou a fundadora da It’s About Impact, acrescentando que, tendo o projeto arrancado durante a pandemia, a primeira intervenção foi na área da fotografia, porque não implicava uma junção grande de pessoas.

Nesse âmbito, foi dirigido um convite ao fotógrafo Daniel Rodrigues, vencedor do World Press Photo em 2013, para fazer parte do projeto, como diretor artístico, e desenvolver um ‘workshop’ de fotografia com jovens do bairro.

Daniel Rodrigues passou muito tempo com jovens do bairro a promover o contacto com a fotografia: a tirar fotos, a envolvê-los com a fotografia, assim como à família, mostrando o trabalho feito por filhos e netos, e revelando através da foto “que bonito é o bairro”.

O resultado foram 25 sessões de fotografia, com 14 participantes (entre os 8 e os 13 anos), e mais de 40 horas em contacto com os jovens fotógrafos, permitindo-lhes retratar os seus olhares sobre a Quinta do Loureiro.

Num primeiro momento, foi promovida uma exposição destas fotografias nos dois cafés do bairro — o “café de baixo” e o “café de cima” -, no âmbito de um projeto intitulado “tirar o bairro do bairro”, e agora “estas fotografias e outras do próprio Daniel Rodriges” vão estar abertas ao público a partir de 11 de novembro, na Biblioteca Cinema Europa, em Campo de Ourique.

Além do objetivo crucial de intervir na inclusão social, este projeto tem também como objetivo mostrar “o que é o bairro” e dar a conhecer “ao bairro de Campo de Ourique que este bairro existe”, disse Jwana Godinho.

“Foi incrivelmente gratificante vê-los. A fotografia é algo que dá muito mais possibilidade do que o simples registo do telemóvel. Convidar o Daniel passa por isto de poder sonhar. Houve miúdos que disseram que nunca tinham percebido que, com a fotografia, podiam viajar”, recordou a curadora do projeto.

Um dos casos mais emblemáticos do poder da fotografia na inclusão, deu-se com João, um jovem de 13 anos, que nunca tinha tido contacto com uma máquina e que hoje em dia diz que quer ser fotógrafo.

Passa o dia a estudar fotografia, pede conselhos sobre ‘workshops’ que pode fazer, mostra as fotografias que tira e acompanha a equipa do projeto sempre que esta vai fazer trabalhos fotográficos ainda que informalmente, revelou Jwana Godinho, para quem esta é “a maior das recompensas que pode haver”.

Além desta mostra fotográfica, vai haver também alguns “pequenos apontamentos” como o fado, envolvendo um conjunto de senhoras mais idosas amantes deste género musical.

Com este grupo, foi feita uma visita à Rádio Amália, ao programa Estrela da Tarde, que lhes permitiu contactar de perto com aquele meio musical e conhecer o que é e como funciona uma estação de rádio.

Foram ainda promovidas algumas conversas sobre o fado e sessões fotográficas “destas senhoras com roupa e poses de fadistas”, proporcionando-lhes a experiência de encarnarem uma personagem fadista, de modo a terem uma dinâmica diferente e outras formas de se orgulharem, contou a responsável.

Estas fotos estarão também integradas na exposição de fotografia ‘Bairro Meu’.

Na sequência deste projeto, está em curso uma parceria com a Rádio Amália para criar uma música que reflita este imaginário do Bairro do Loureiro, acrescentou Jwana Godinho.

Outra dimensão deste projeto visa celebrar a ligação da arte urbana ao desporto, através do ‘Community Champions League’, um campeonato de futebol entre vários bairros, cujo vencedor da edição do ano passado foi o Bairro da Quinta do Loureiro, disse.

No âmbito deste projeto, haverá uma “intervenção de arte urbana no espaço do campo e no espaço circundante, onde os miúdos vão estar”, que é um “momento para celebrar o campeonato e promover a intervenção comunitária através da arte urbana”.

A exposição vai estar patente até ao dia 11 de dezembro.

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