Exposição que homenageia Ernesto de Sousa é inaugurada este mês em Lisboa

No âmbito da mostra, é exibido, na Cinemateca Portuguesa, também em Lisboa, o único filme dirigido por Ernesto de Sousa, “Dom Roberto”, premiado no Festival de Cannes, em França, em 1963.

A mostra “Ernesto de Sousa, Exercícios de Comunicação Poética com Outros Operadores Estéticos”, segundo a organização num comunicado hoje divulgado, “pretende prestar homenagem à abordagem artística de Ernesto de Sousa, através de uma perspetiva e diálogo intergeracional da sua obra e dos seus arquivos”.

“Nesse sentido, foram convocados para uma releitura da prática artística de Ernesto de Sousa vários artistas: José de Almada Negreiros, Oficina Arara, Pedro Barateiro, Isabel Carvalho, Salomé Lamas, Hanne Lippard, Sarah Margnetti, Franklin Vilas Boas Neto, Rosa Ramalho, Nils Alix-Tabeling, Nora Turato, Treffen in Guincho* e Ricardo Valentim”, lê-se no comunicado.

Este projeto, com curadoria de Lilou Vidal, “revisita a primeira exposição individual que Ernesto de Sousa realizou em Portugal na Galeria Quadrum, ‘A Tradição como Aventura’ (1978), apresentada há 43 anos neste mesmo local, bem como uma seleção de obras, projetos interativos, coletivos e curatoriais realizados entre as décadas de 1960 e 80 no espaço da Galeria Avenida da Índia”.

“Ernesto de Sousa, Exercícios de Comunicação Poética com Outros Operadores Estéticos” é inaugurada em simultâneo na Galeria da Índia e na Galeria Quadrum, no dia 27 de novembro.

O filme “Dom Roberto”, que será exibido no dia 29 de novembro, na Cinemateca, no âmbito da mostra, é apontado como precursor do Novo Cinema português. Estreado em sala, em 30 de maio de 1962, foi distinguido no Festival de Cannes, no ano seguinte, com o prémio da Jeune Critique e o prémio da Association du Cinéma pour la Jeunesse.

“Dom Roberto”, um drama protagonizado por Raul Solnado e Glicínia Quartin, com participação do poeta Alexandre O’Neill, no argumento, “representou uma inédita experiência cinematográfica em Portugal, tendo sido produzido em regime de ‘cooperativa de espectadores'”.

A exibição é precedida de uma apresentação comentada da artista Salomé Lamas.

“No espírito de Ernesto de Sousa, Salomé Lamas adota uma seleção de textos que vão desde correspondência, artigos, críticas, ensaios, guiões e outros, enquadrando a intervenção sociopolítica do artista na criação, com a apresentação inédita de alguns diapositivos do filme, nos quais Ernesto interveio no final da sua vida”, lê-se no comunicado.

As comemorações do centenário de nascimento do artista, poeta, crítico, curador e cineasta português Ernesto de Sousa, começaram em abril, e irão estender-se durante o próximo ano, “uma vez que a exposição na Galeria Quadrum vai ser apresentada na Frac Champagne Ardenne in Reims, França, em 2022”.

Crítico, artista visual, realizador, teórico e programador estético, Ernesto de Sousa marcou o panorama das artes em Portugal a partir de meados de 1940, inspirando as gerações de artistas que se afirmaram após o 25 de Abril.

Ernesto de Sousa acarinhou um conjunto de artistas fundamentais do pós-25 de Abril, foi curador de exposições e de eventos artísticos coletivos, fez várias exposições individuais, e concebeu a mostra “Alternativa Zero”, em 1977, um acontecimento que marcou a arte portuguesa contemporânea.

Muitos dos artistas que nela participaram tornaram-se depois nomes consagrados, como foi o caso de Helena Almeida, Julião Sarmento, Ângelo de Sousa, Noronha da Costa e Fernando Calhau, entre outros.

Ernesto de Sousa comissariou, por três vezes, a representação portuguesa na Bienal de Veneza, participando numa obra coletiva com Ana Hatherly, João Vieira, Ernesto de Mello e Castro e António Sena (1980), e escolhendo depois Helena Almeida (1982) e José Barrias (1984), como representantes.

Desdobrando-se por várias atividades e interesses, “anti-especialista por escolha e vocação”, Ernesto de Sousa destacou-se na realização e na crítica de cinema, no cineclubismo, na fotografia, no estudo da arte popular, na crítica de arte, no teatro, e depois no cinema experimental, entre outras formas artísticas, como o ‘happening’, a ‘performance’, através do Movimento Fluxus, na sua introdução em Portugal.

Estudou cinema em Paris, entrou em divergência com o movimento surrealista em Portugal, foi pioneiro da arte multimédia e colaborou com jornais e revistas como a Seara Nova, Horizonte, Vértice, Mundo Literário e Colóquio Artes.

É tido como fundador do Círculo de Cinema, em 1946, onde a polícia política da ditadura do Estado Novo o deteve, assim como à restante direção, naquela que foi a primeira de quatro prisões do artista por motivos político-culturais.

Nos vários caminhos criativos que percorreu, Ernesto de Sousa defendeu sempre o derrube de fronteiras entre arte e vida, e encontrou as suas figuras tutelares em Bertolt Brecht, Joseph Beuys, Wolf Vostell, Almada Negreiros, mas também em criadores como Rosa Ramalho e Franklin Vilas-Boas Neto.

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