"Há um lado de metamorfose constante, é um disco que provoca o ouvido"

Está a chegar a hora de mostrar ao mundo o culminar de três anos de trabalho com o álbum ‘Três anos de Escorpião em Touro’ e Filipe Sambado espera, acima de tudo, que os seus próximos espetáculos sejam “de emoções fortes”.

A artista vai subir ao palco do Lux Frágil, em Lisboa, e ao Auditório CCOP, no Porto, nos dias 16 e 23 de novembro, respetivamente. Os bilhetes já estão à venda e custam 15 euros.

Ao Notícias ao Minuto, Filipe Sambado explicou que criou um espetáculo que vai “para além da ideia só de concerto”, com “dramaturgia e encenação”, esperando que se torne “uma experiência sinestésica” para o público.

O seu último álbum revela o seu lado mais “íntimo”, mas também ecoa um “grito de liberdade” por uma sucessão de acontecimentos na sua vida – como a parentalidade e a reafirmação de género, uma vez que se assumiu como pessoa não binária.[O álbum] tem um tom de intimidade muito grande e sinto-me muito ligada à forma como me abri para poder falar sobre várias coisas

Que história é que ‘Três anos de Escorpião em Touro’ quer contar? Desde ‘Revezo’ (2020) houve uma transformação na sua vida…

Este disco reflete uma série de fatores e de experiências que foram muito relevantes, muito íntimas, muito pessoais, e vão sendo os assuntos que vão acompanhando o disco, que vão desde um desenvolvimento familiar muito rico, a momentos de tristeza muito profunda, de ansiedade e depressão, gritos de liberdade, passam por muitas confrontações comigo própria e o disco vai sendo pautado por esses momentos.

É o trabalho que conta mais da sua história?

Tem um tom de intimidade muito grande e sinto-me muito ligada à forma como me abri para poder falar sobre várias dessas coisas na tentativa de descrever emoções que, às vezes, tento guardar ou transmitir de uma forma um pouco diferente. Não significa que não haja um lado de intimidade muito grande nos outros trabalhos que fui fazendo, mas aqui o tom torna-se muito próximo, até a forma como ele é cantado na maior parte das vezes oscila muito na sensação do grito ou do cantar muito suave.

A construção deste álbum percorre um período em que se assumiu também como uma pessoa não binária. Como se vive este processo aliado à música?

São coisas distintas, mas há uma indissociabilidade do facto de fazer canções sobre mim e sobre as minhas experiências. Não há uma ligação maior à minha música com o facto de eu ser uma pessoa não binária porque não faço um tipo de música diferente. Há, no máximo, um contágio temático de falar desse assunto por ser uma coisa nova para mim também, por haver esse questionamento comigo mesma, que é um questionamento amoroso, não é uma coisa que se afirma de um dia para o outro. Este tipo de posições tem sempre esse lado e é nesse sentido que se torna assunto para o disco.

A conclusão a que chego é que a maior identidade que tenho é aquela que construo. Utilizar o termo não binário é apenas um termo descritivo e que ajuda na reconstrução da ideia de género.

No single ‘Talha Dourada’ há um verso que diz ‘Sou mais eu quando não tenho medo de ser’. É uma mensagem coincidente com o tal “grito de liberdade” que falava…

Sim, essa frase é antecedida por ‘não quero ser mais de um nem de outro’, que se refere aos dois géneros binários. Essa música fala substancialmente da experiência do quotidiano, num tom de provocação para a má língua generalizada, como se eu estivesse a falar com uns quadrilheiros que por aí andam, e acaba por ser uma maneira de ir dizendo que a minha vida continua a ser feita. No fundo, o que pretendo é tentar que as coisas tenham sempre um marco identitário, mas que isso sirva só como um ‘ponto no i’. Sou só eu a dizer que isto não muda nada e não me identifico de uma forma, mas identifico-me de outra forma e de resto é tudo igual. A conclusão a que chego é que a maior identidade que tenho é aquela que construo. Utilizar o termo não binário é apenas um termo descritivo e que ajuda na reconstrução da ideia de género.

Há também aqui uma descrição mais esotérica do título do álbum associado ao seu mapa astral. Quer explicar-me brevemente esta questão?

O meu mapa astral tem Escorpião no meu ascendente, no meu Saturno e no meu Plutão, e tenho Touro em Vénus. Isto tem a ver com a colisão destes dois signos neste período de tempo e no confronto que estes dois aspetos foram tendo ao longo dos assuntos que vou aqui falando – as tais tristezas, euforias, um período de guerra, de ansiedade – que são emoções e momentos que foram acompanhando a criação deste disco.

Sinto que este trabalho foi um salto de qualidade, de afirmação e de identidade musical

O que é que o seu trabalho – e este disco em particular – traz de diferente ao panorama musical português?

Este disco é muito cuidado, tive muito trabalho a tentar encontrar a melodia mais perfeita e uma harmonia que coadjuvasse com a melodia, a tentar construir sonicamente e plasticamente os artefactos necessários para que essas melodias, ritmos e palavras pudessem ser passadas de forma a que a experiência fosse mais próxima da interpretação que faço delas ou, pelo menos, a que quero propor.

Tem uma riqueza musical muito rigorosa nesse aspeto plástico e sónico, porque tem um lado de experiência auditiva também, parece que os ambientes estão a contar sempre mais qualquer coisa além da parte musical, através dos efeitos que se vão usando, das texturas que vão criando, as pequenas sucessões, as destruições dos instrumentos, a maneira como se transformam em novos instrumentos. Há um lado morfológico, de metamorfose constante, é um disco que nunca, em momento algum, é constante, está sempre a criar algum tipo de instabilidade que provoca o ouvido a tentar perceber o que aconteceu.

Com a sua verdade bem impressa neste álbum, considera que poderá ser um patamar de maior reconhecimento a nível nacional e até internacional?

Gostava muito que as coisas se desenvolvessem num sentido de me aproximar de um público maior. Acho que, às vezes, acontece haver algumas limitações autoimpostas pelas próprias rádios, no sentido de quererem acautelar o seu próprio público, de não quererem ‘provocar’ com certo tipo de escutas ou propostas e isso acaba por diminuir os próprios públicos. Quando falo disto não estou a falar propriamente do meu trabalho, até é no sentido de cimentar que há muitas rádios que tentam não fugir demasiado de uma coisa muito habitual e muito conservadora para si e acho que o público acaba por estar muito mais ávido a novas descobertas.

Sinto que o meu disco sucederá um pouco nesse sentido, acabando por continuar a fazer o circuito do mesmo tipo de rádios e do mesmo tipo de playlists de streaming. Portanto, mesmo que almeje um alcance maior, continuo a achar que os sítios que vou percorrendo acabam por ser muito semelhantes – o mesmo tipo de rádios, o mesmo tipo de playlists… Mas esperava que houvesse uma possibilidade de exportação deste disco, porque também sinto que aquilo que fiz com este trabalho foi um salto de qualidade, de afirmação e de identidade musical. Estou muito confiante em querer mostrá-lo.

A música deve ser de escuta e de representatividade das pessoas, não de competição

A sua participação no Festival da Canção em 2020 foi um momento marcante? Idealiza voltar?

Foi uma ótima oportunidade para poder mostrar o meu trabalho, para poder conhecer por dentro o formato do programa, para relativizar um pouco da parte do concurso, que é algo que me afugenta um pouco, porque acho que a música deve ser de escuta e de representatividade das pessoas, não de competição. Servir-se um país com uma canção que vai a concurso também é uma coisa que, de certa forma, não me diz muito. Mas a participação em si foi uma grande surpresa, foi uma experiência muito feliz, gostei muito de conhecer aquelas pessoas, gostei muito de estar naqueles dois eventos – na semi-final e na final – e gostei muito de, no ano passado, fazer a homenagem ao Fausto e este ano também vou estar a produzir uma canção que irá participar. Tem sido um evento com o qual tenho criado alguma proximidade desde a primeira oportunidade.

Conan Osiris, representante português da Eurovisão 2019, participou no tema ‘Caderninho’. Que mais valia trouxe esta colaboração?

Admiro muito o trabalho do Tiago e acho que, de tal forma, que a parte que ele canta eu já a estava a cantar daquela maneira e, no fundo, estava a imitá-lo. Senti que seria muito mais interessante convidá-lo a cantar aquela parte, em vez de ser eu. Foi uma coisa muito imediata e rápida, nós falamos com uma base regular e o convite foi imediatamente aceite.

E há outro tipo de colaborações em vista?

Espero agora explorar uma fase de colaborações mais habituais e gostava de começar a fazer colaborações com várias pessoas, como o Luís Severo, a Aurora, a Mariene, a Lil Mami Barbz, a Surma… Há uma série de gente com quem gostaria de o fazer nos próximos tempos, porque são pessoas cujo trabalho eu admiro, sigo e acompanho. Quero agora explorar mais o conceito de ‘singles’ e não tanto de disco.

Já foi criada uma imagética, já foi proposto um universo e será mais fácil entender e usufruir do espetáculo

Terá dois concertos, em Lisboa e Porto, em novembro. O que se pode esperar destes espetáculos? Alguma surpresa?

Espero que sejam espetáculos de emoções fortes e consiga cumprir a proposta que o próprio disco faz em termos de experiência e de viagem. Quero fazer uma coisa semelhante com a experiência do espetáculo, poder criar um concerto muito sólido e poder acrescentar também uma dramaturgia e uma encenação ao próprio concerto através da participação dos elementos que vão estando em palco, como a luz e o som. Estamos a trabalhar no sentido de criar uma coisa que vá para além da ideia só de concerto, mas que proponha também uma experiência sinestésica e que vá a mais sentidos que não só os ouvidos e os olhos.

Quase como criar um videoclipe em palco…

Exato, a própria ideia dos videoclipes, de fazer um álbum pessoal e poder-se introduzir imageticamente o disco antes dele sair faz parte daquele conceito de lançar vários vídeos num curto espaço de tempo para poder criar um universo que condicionasse a escuta do disco. A continuidade com o concerto é essa: já foi criada uma imagética, já foi proposto um universo e será mais fácil entender o concerto e usufruir do espetáculo.

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