Historiador britânico apresenta livro sobre racismo no Reino Unido

O historiador britânico Rick Blackman, autor do livro “Babylon’s Burning” sobre a “subcultura britânica” desde o pós-guerra, disse à Lusa que a música foi e “continua a ser” o melhor argumento contra o racismo e a violência.

“Estas são as lições que aprendemos no Reino Unido: a grande ideia das campanhas como o Rock Against Racism [1976-1981] foi mostrar às pessoas que há outros caminhos. Como é que se pode ser fascista ou racista quando se dança música Garage ou Reggae, Ska ou Mowtown ? A música é um grande argumento e não há melhor do que a música porque a música atinge as pessoas de forma emocional”, disse à Lusa Rick Blackman, 59 anos, historiador, especializado em História Contemporânea.

O livro “Babylon’s Burning – Music Subcultures and Fascism in Britain 1958-2022” trata das três grandes campanhas que desde os anos 1950 demonstraram forte resistência contra as organizações racistas e neofascistas britânicas, e vai ser apresentado em Lisboa, no próximo dia 18.

No caso da campanha Rock Against Racism (RAR) o autor recorda que, em 1976, “muitas bandas Punk não arriscaram apenas conflitos diretos” com as editoras discográficas como enfrentaram “riscos físicos” durante os concertos, devido à violência da extrema-direita.

Entre 1976 e 1981, de acordo com a contagem dos organizadores citados na investigação de Blackman, 273 bandas britânicas estiveram envolvidas diretamente nas campanhas do RAR.

Blackman detalha no livro que a campanha RAR foi formada em 1976 devido ao crescimento eleitoral da National Front e do Partido Nacionalista, organizações de extrema-direita britânica, tendo um concerto de Eric Clapton sido a “gota de água” para a mobilização.

“Em concreto, o movimento surgiu depois de o guitarrista Eric Clapton ter feito vários comentários de caráter racista, durante um concerto em que se apresentou embriagado. Clapton demonstrou apoio aos políticos de extrema-direita afirmando que os ‘negros deviam ser enviados para África ou para as Caraíbas ou para a Índia'”, recorda Blackman.

Em 1970, durante o governo do conservador Edward Heath, o desemprego atingia 600 mil pessoas tendo o número alcançado o dobro em 1973 e continuado a aumentar, em parte, devido aos problemas provocados pelo aumento do preço do petróleo pelos membros da Organização de Países Produtores e Exportadores de Petróleo (OPEC, na sigla em inglês).

A inflação atingiu 33% num contexto em que os gastos públicos correspondiam a 46% do Produto Interno Bruto (PIB) tendo o Reino Unido sido obrigado a pedir a intervenção do Fundo Monetário Internacional, em 1976.

O livro refere que paralelamente ao desemprego e à crise económica a vaga de refugiados de origem asiática, obrigados a abandonar o Uganda e o Malawi, recebidos no Reino Unido, provoca uma reação violenta por parte da extrema-direita que recruta milhares de apoiantes e eleitores em todo o país.

Em 1976, a resposta aos nacionalistas foi a organização de concertos que se multiplicaram por todo o país, muitas vezes partindo da iniciativa de grupos locais em salas de espetáculos, bares ou discotecas usando a música para contestar o racismo e a extrema-direita. 

“A maior parte dos músicos com relevância aderiram: os Clash, Steel Pulse, Asswad, Elvis Costello, Tom Robinson. Foram, sobretudo músicos ligados ao Punk, ao Reggae e ao Ska, usando a música para demonstrar posições contra a violência da extrema-direita”, diz o autor do livro.

Ironicamente, as forças nacionalistas perdem relevância eleitoral depois de uma entrevista televisiva de Margaret Thatcher, em 1978, em que a líder dos conservadores britânicos usa, pela primeira vez, “o mesmo discurso e o mesmo vocabulário” dos neofascistas sobre questões de emigração dos países da Commonwealth.

Apropriando-se do discurso sobre a imigração no Reino Unido, Thatcher venceu as eleições, “esvaziando” a National Front mas adotando medidas económicas draconianas que marcaram a década de 1980.

Entre outros protestos, as políticas de Thatcher provocaram, nomeadamente, um outro movimento musical, neste caso, eminentemente partidário (Red Wedge) de apoio à greve dos mineiros, em meados dos anos oitenta, também estudado no livro de Blackman.  

A pesquisa detalha ainda o movimento Love Music Hate Racism (LMHR), que iniciou a campanha em 2002 com o mesmo propósito de combater o racismo, assim como aprofunda a história dos vários movimentos (subcultura) britânicos: Teddy Boys (e Teddy Girls); Mods, Skinhead (que originalmente integrava jovens brancos e negros), o Reggae, o Punk e a New Wave. 

A coletânea de 1979 com os temas dos concertos da campanha RAR (“Rock Against Racism”), no Reino Unido, tem cinco versões diferentes em vinil na Europa continental, tendo sido publicada em Portugal pela editora Vadeca em 1980.

A versão portuguesa com 14 faixas, inclui, entre outros, os temas das bandas de Reggae Asswad e Steel Pulse, do músico e ativista Tom Robinson, da banda Punk X-Ray Spex, mas não inclui o tema dos Clash “White Man at Hammersmith Pallais”.

Os Clash deram um concerto em Cascais em 1981 e a Tom Robinson Band atuou no Festival de Vilar de Mouros em 1982. 

Em oposição às formas diretas das campanhas anteriores, o académico britânico considera que no século XXI, a Internet “tornou as coisas mais fáceis” em todo o mundo.

“O movimento Black Lives Matter [Estados Unidos, 2020] é um grande exemplo de como é possível alertar de forma global sobre as questões do racismo. Em muitos aspetos o uso das redes sociais por pessoas de várias idades consegue uma mobilização mais rápida do que em 1976”, concluiu o autor britânico.

Rick Blackman vai apresentar o livro “Babylon’s Burning” (Bookmarks Publications, 328 páginas) na editora Groovie Records, na Rua Angelina Vidal, em Lisboa, no próximo dia 18 de março. 

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