Ícone da bossa nova Joyce Moreno gosta "de trazer o sol" com a música

No ano passado lançou o álbum “Natureza”, 45 anos depois de o ter gravado em Nova Iorque, o que fez dele uma lenda na sua carreira de mais de cinco décadas, e cuja edição representou um “alívio muito grande”, como afirma a compositora de 75 anos.

O álbum inclui uma versão de 11 minutos de “Feminina”, a ‘canção-bandeira’ do seu percurso, assim como “Coração Sonhador”, entre os arranjos orquestrais de Claus Ogerman (1930-2016), que também trabalhara com Tom Jobim em “Wave” e “Desafinado”.

Foi a morte do compositor alemão, que tinha uma série de exigências sobre o lançamento do disco, que desbloqueou a edição pela Far Out Recordings.

“Foi um alívio muito grande. Em todos os países é comum: algum compatriota faz uma coisa muito importante e as pessoas desconfiam que não seja verdade. Principalmente se for mulher. (…) As pessoas diziam que era mentira [a existência do disco]. Agora está aí, e é muito ‘legal’. Por outro lado, gostaria muito que tivesse saído antes. A vida teria sido outra”, reflete.

Entre temas “gravados e regravados”, alguns inéditos e novas roupagens, “Natureza”, que conta com músicos como o percussionista Naná Vasconcelos, tem como peça central essa versão maior de “Feminina”, a “canção de assinatura”, como Joyce Moreno a descreve, uma conversa entre mãe e filha sobre o que significa ser-se feminina, e os papéis sociais impostos às mulheres por essa condição.

Aos 75 anos, Joyce Moreno é um dos grandes nomes do Brasil ainda no ativo, entre digressões internacionais (os concertos em outubro em Lisboa e Porto foram cancelados), e espetáculos dentro de portas. A chave para a longevidade está, brinca, num ditado da avó.

“É uma resposta que a minha avó daria, que passou à minha mãe e a minha mãe a mim: ‘A necessidade de andar faz sapo pular’. Viajamos e fazemos este trabalho todo porque é necessário, porque se não você fica estagnado no mesmo lugar”.

O palco é tanto um espaço de prazer como “o ganha pão”, pelas dificuldades que o espaço enquanto compositora hoje em dia acarreta, por causa do peso “das grandes empresas digitais, como a Google e o Spotify, que acabam com essa profissão”.

“Não é mais uma profissão. Se é um artista, não é uma profissão. Músicos, cantores, jornalistas… Todos hoje em dia estamos reféns dessa situação. Nós, que geramos o conteúdo, não temos direito a praticamente nada. Vivemos em risco e a ter que produzir, produzir, produzir. Se não, a coisa não anda. O prazer e a felicidade que sinto no palco é o que me salva, porque se não sentisse esse prazer e felicidade, seria profundamente infeliz por fazer por obrigação. Mas eu amo fazer isso. Enquanto puder e tiver energia e saúde, vou continuar”, comenta.

A campanha concertada contra artistas em torno da chamada ‘lei Rouanet’, no Brasil, o diploma federal de apoio à cultura, com comentários que associam músicos a figuras corruptas e a vidas faustosas, serve para “apanhar pessoas ingénuas” e ignorar o papel da cultura para a sociedade, seja na difusão internacional ou em momentos como a pandemia de covid-19.

“Foram 700 mil mortes [por covid-19 no Brasil], das quais mais de metade eram desnecessárias. (…) Prestamos serviço direto, sem receber. Foi terrível, foi um período no Brasil duplamente ‘premiado’, com pandemia e desgoverno”, critica, em comentário sobre a política de Jair Bolsonaro, entretanto substituído na presidência por Lula da Silva.

Joyce manteve-se sempre atenta e crítica quanto à situação social e política do seu país, desde que se iniciou na carreira, seguindo o ‘mantra’ de “responsabilidade para com as pessoas” que lhe passou Tom Jobim, a quem chama amigo e mestre, e a recusa de reduzir momentos de diversão e alegria a “uma coisa menor”, à semelhança de Ney Matogrosso.

“É uma sensação muito boa saber que o disco trouxe um sol, uma alegria [a quem o ouve]. Dá uma alegria muito grande, sensação de que se cumpriu um dever. Há artistas que trazem um outro tipo de consciencialização, e isso também é muito importante. Eu gosto de trazer o sol, se eu puder”, diz.

Em relação ao passado, vê ter-se aberto, “incrivelmente, um universo e possibilidade de fazer música autoral” para mulheres, vendo várias muito jovens em destaque, como a pianista Bianca Gismonti, a saxofonista e compositora Gaia Wilmer e a instrumentista Mariana Zwarg. E sublinhando que “todas as cantoras querem ser compositoras”.

Quanto à música popular brasileira, como a bossa nova de que se tornou ícone, vê-a hoje colocada num espaço “de certa clandestinidade”. Joyce aponta o dedo à Igreja Evangélica, que ocupa espaço nas rádios e nas salas de concerto para só dar música de pendor religioso, e “ao agronegócio que compra rádios para que só toque sertanejo”.

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