Jess Salgueiro, explora histórias "que nunca foram contadas"

“Há tantas histórias que podemos contar, que nunca foram contadas antes e agora podemos fazê-lo com uma equipa maioritariamente liderada por mulheres”, disse a atriz, em entrevista à Lusa. “São contadas por uma lente específica. Estava muito entusiasmada por ver uma série pela lente de mulheres”.

Jess Salgueiro, filha de emigrantes portugueses no Canadá, dá corpo à assessora da congressista Jennifer Brown (interpretada por Diane Lane), que assume a presidência dos Estados Unidos quando todos os homens cisgénero morrem repentinamente sem explicação.

“Senti que as oportunidades que teríamos eram muito entusiasmantes, um solo fértil para falar do que significa ser mulher num mundo os homens cisgénero não existem”, explicou a atriz. “Se não temos a justaposição de mulheres contra homens cisgénero, como é que desempenhamos a nossa feminilidade, como é que desempenhamos o nosso género? E será que isso interessa?”, continuou.

Esta abordagem, disse, é uma análise mais profunda em relação ao teor da banda desenhada original, criada por Brian K. Vaughn e Pia Guerra em 2002, que foi a base da série.

“Quando vi o argumento confiei que a equipa ia atualizar a história e endereçar as nuances e todas as conversações difíceis e apetecíveis sobre género”, afirmou Salgueiro. “Crescendo e sendo socializada como uma mulher, tentando sempre resistir aos papéis determinados pelo género, senti que havia aqui muita riqueza e muitas histórias que podemos contar”.

A série foi desenvolvida por Eliza Clark e executada por uma equipa maioritariamente feminina, desde as realizadoras e produtoras à direção de fotografia e chefes de departamentos.

“O que é interessante e diferente dos livros é que adicionaram muitas mais personagens”, referiu Salgueiro, frisando que Christine Flores não existia antes da série televisiva. “Focaram-se em histórias que não eram muito proeminentes nos livros de propósito, porque não queriam que isto fosse centrado num homem cisgénero”.

Na história, há duas exceções à morte súbita de todos os mamíferos com cromossoma Y, Yorick Brown (interpretado por Ben Schnetzer) e o seu macaco de estimação, Ampersand.

“O que gostei na forma como a personagem do único homem cisgénero sobrevivente foi escrita e interpretada é que ele é um inútil. Não é um macho alfa”, descreveu Salgueiro. “É alguém com privilégio racial, de género, e penso que foi uma escolha inteligente. A audiência olha para ele e pergunta, é este o homem que é tão importante? A sério?”.

Para a atriz, a forma como a personagem é apresentada estimula o debate: “Temos uma oportunidade de olhar para isso e perguntar porque é que colocaríamos um homem num pedestal quando ele nem sequer nos está a ajudar a sobreviver, salvo que tem esperma de que precisamos para garantir a continuidade da espécie”.

Depois do cataclismo misterioso que mata os mamíferos com cromossoma Y, o caos abate-se sobre as cidades numa visão apocalíptica para a qual Salgueiro disse não estar preparada. “Fiquei estupefacta com a visão de um mundo que se desfaz”, sublinhou.

“As estatísticas que os escritores nos deram deixaram-me doida. Neste mundo a eletricidade não funciona porque a rede elétrica é um sistema cheio de remendos e algo como 90% das pessoas que trabalham nela e estão sempre a repará-la são homens”, afirmou.

Uma das cidades retratadas na série é Nova Iorque, onde a rede do metropolitano colapsa com inundações, porque as equipas que sabiam como manter os sistemas que retiram água das estações eram masculinas.

“Mostra o quanto precisamos uns dos outros e como estamos ligados”, frisou a atriz. “Nenhum destes personagens pode estar numa existência isolada. Com metade da população a desaparecer, vemos como precisamos de toda a gente para que o mundo funcione”.

Salgueiro disse esperar que a série ressoe com os espectadores, tal como ressoou com ela. “Mostrou-me como o mundo é delicado. Espero que a audiência seja lembrada dessa preciosidade, porque apesar de alguns momentos arrojados, é uma história muito trágica”.

Filmada em Toronto durante o confinamento por causa da pandemia de covid-19, a série também conta com Ashley Romans (Agente 355), Olivia Thirbly (Hero Brown), Elliot Fletcher (Sam Jordan), Amber Tamblyn (Kimberly Campbell Cunningham) e Diana Bang (Allison Mann).

“Y: O Último Homem” é uma produção FX on Hulu, que em Portugal está disponível na plataforma Disney+.

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