João Cutileiro: Autarca de Évora evoca perda de "vulto maior da cultura"

“Recebi com mágoa, naturalmente. Sabíamos que estava doente há bastante tempo, mas é sempre uma tristeza receber esta notícia”, lamentou à agência Lusa o presidente da Câmara de Évora, Carlos Pinto de Sá.

Segundo o autarca, perdeu-se “um vulto maior da cultura e da escultura portuguesa” e, para Évora e para o Alentejo, é também “um dia triste”.

O artista “fez o seu trabalho, na maior parte da vida, a partir de Évora e, naturalmente, é também uma perda para Évora e para o Alentejo”, sublinhou Pinto de Sá.

João Cutileiro (1937-2021), que estava internado num hospital de Lisboa com graves problemas respiratórios, morreu hoje, aos 83 anos, revelou à Lusa a diretora regional de Cultura do Alentejo, Ana Paula Amendoeira.

Em 1985, João Cutileiro mudou-se de Lagos, no Algarve, para Évora, onde se fixou e onde deixou exposta, na sua própria casa, boa parte de uma obra multifacetada, em que também trabalhou materiais como o cimento fundido, o bronze, o ferro soldado, o gesso, além do mármore, muitas vezes corroído com ácido.

Nesta cidade alentejana, em 1981, já tinha promovido, com o Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, o I Simpósio Internacional de Escultura em Pedra, reunindo um grupo de escultores.

O presidente do município de Évora evocou hoje o caráter disruptivo que as obras do artista sempre tiveram: “Criaram sempre alguma rutura, alguma polémica, o que significa que a cultura estava viva”.

Carlos Pinto de Sá lembrou ainda a doação do espólio de Cutileiro, anunciado em 2016, ao Ministério da Cultura, através da Direção Regional de Cultura do Alentejo, à Câmara e à Universidade de Évora.

“Ofereceu o seu espólio, no sentido de poder vir a ser utilizado e divulgado para as futuras gerações”, num processo no qual as três entidades têm “estado a trabalhar”, relatou.

O autarca de Évora disse esperar que, “a breve trecho”, seja possível “iniciar a divulgação e exposição desse património absolutamente único”.

A residência do artista, onde está previsto que “nasça” uma Casa/Ateliê com o seu nome, “continuará a ser utilizada pela esposa, naturalmente”, mas há “alternativas para poder expor o espólio ou parte dele”, indicou.

“São muitas peças. O inventário ainda não está completo, porque uma parte das obras estava ainda na posse do João Cutileiro, pelo que vamos ter que esperar um pouco, mas são muitas e diversas obras, também de diversos períodos”, disse.

Também o presidente da Câmara de Reguengos de Monsaraz (Évora), concelho onde Cutileiro fez a primeira exposição individual, com apenas 14 anos, lamentou hoje à Lusa a morte desta “personalidade única”.

“Não se podem definir pessoas com a dimensão do Mestre Cutileiro. Tinha uma personalidade única e fortíssima e a sua vida artística e pessoal cruza-se com o concelho de Reguengos de Monsaraz”, disse o autarca José Calixto.

Essa primeira mostra, “Tentativas Plásticas”, que esteve patente numa loja de máquinas de costura em Reguengos de Monsaraz, com peças de escultura, cerâmica, aguarelas e pinturas, foi evocada por esta câmara municipal em 2016, no 30.º aniversário da Bienal Cultural Monsaraz Museu Aberto.

“Fizemos questão de marcar esse momento com uma peça do escultor que ficou no espólio do município”, acrescentou José Calixto, que disse guardar “com carinho” um autógrafo de Cutileiro, que o artista “esculpiu numa pedra”.

João Cutileiro é autor do Monumento ao 25 de Abril, instalado no Parque Eduardo VII, em Lisboa, entre muitas outras obras.

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