"Lado extraordinário da arte de Silva Porto" exposto em Bragança

“Silva Porto – 100 desenhos e duas pinturas”, que vai ficar patente até 30 de julho, reúne pela primeira vez, num mesmo espaço, algumas das obras maiores do “pai do Naturalismo em Portugal”, como o designa o diretor do Museu do Abade de Baçal, Jorge Costa, conjugando exemplares da coleção de desenho da Sociedade Nacional de Belas Artes, com o acervo do próprio museu a que junta umas das principais obras do pintor, “A Volta do Mercado”, da coleção do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC), em Lisboa.

“Silva Porto é o pai do Naturalismo em Portugal, um grande mestre nesta arte. O Museu do Abade de Baçal tem uma coleção extraordinária deste período e pela primeira vez quisemos apresentar uma exposição individual deste artista que é uma referência nacional na sua arte”, explicou Jorge Costa à agência Lusa.

O diretor do museu sublinhou que “esta vai ser uma exposição sobretudo de desenho, que pretende mostrar o lado extraordinário da arte de Silva Porto”.

António Carvalho da Silva Porto (Porto, 1850 — Lisboa, 1893), depois de concluir o curso da Belas-Artes na academia do Porto, partiu para Paris, onde fez estudos de Pintura de Paisagem. Em França, trabalhou em Barbizon, lugar de referência de nascimento do Naturalismo, e conviveu com Daubigny, um dos mestres do movimento.

Expôs no Salon de Paris nos anos de 1876 e 1878, viajou por Itália e regressou a Portugal em 1879. A sua exposição na antiga Sociedade Promotora das Belas-Artes, em Lisboa, em 1880, marca a introdução do Naturalismo no país.

Professor de Paisagem na Academia de Lisboa, Silva Porto acabaria por formar uma geração de alunos, reunindo em seu redor um grupo de jovens pintores que se expressava anualmente nas “Exposições de Quadros Modernos”, como recorda a página do MNAC dedicada ao artista.

Trata-se de um grupo que viria a ficar célebre no retrato coletivo de Columbano Bordalo Pinheiro “O Grupo do Leão”, de 1885, o grupo que reunia nomes como José Malhoa, Rafael Bordalo Pinheiro, João Vaz, Alberto de Oliveira, Cipriano Martins e o próprio Columbano, entre outros, em redor de Silva Porto.

“É um nome de vulto da pintura portuguesa na passagem do século XIX para o século XX”, lê-se na apresentação da mostra do Museu do Abade de Baçal. “Apesar da sua curta vida, o artista deixou um significativo legado artístico”.

Jorge Costa indicou à Lusa que, aos desenhos de Silva Porto, se associam duas pinturas: uma das suas obras maiores, “A Volta do Mercado”, do MNAC, que a descreve como “exemplo maior da pintura solar do artista” e “testemunho de um entendimento da luz como presença que perdurará por gerações”, e “a icónica pintura” “As cebolas”, da coleção do Museu do Abade de Baçal.

O núcleo do museu de Bragança agrega alguns dos principais nomes do Naturalismo português, como Marques de Oliveira, Artur Loureiro, José Malhoa e Columbano, uma aposta do antigo diretor Raul Teixeira que, nos anos de 1930 a 1950, ambicionou dar uma dimensão nacional à instituição, sendo considerado localmente “a alma artística do museu”.

“Penso que as pessoas já conheciam a obra de Silva Porto, mas não a sua totalidade e importância que teve na esfera cultural do seu tempo. Agora, através desta exposição, poderão conhecer melhor as suas obras”, disse à Lusa o atual diretor, Jorge Costa.

“Mais do que a pintura, a presente exposição propõe um encontro com o virtuoso desenho de Silva Porto, numa seleção realizada na vasta coleção da Sociedade Nacional de Belas Artes, cujo núcleo permite conhecer não só alguns dos muitos temas por ele tratados, como as distintas fases da sua produção artística”, vincou Jorge Costa.

No seu conjunto, a mostra conduz o visitante pelo percurso e pela obra do artista, quer enquanto estudante na Escola Industrial e na Academia de Belas Artes do Porto, quer como Pensionista do Estado em Paris.

Pintor de paisagens e de atmosferas luminosas, “divino mestre” do movimento naturalista em Portugal, como era apelidado, Silva Porto foi também o precursor de uma geração de artistas que fizeram do Naturalismo um fenómeno artístico que perdurou no tempo.

A sua pintura é muito portuguesa, destaca a apresentação, exaltante das terras e dos costumes, em cores generosas cheias de luz, expressa numa obra em que se destacam quadros como “A condução do rebanho”, “A salmeja”, “Seara”, “Ceifeiras”, na posse de diferentes museus portugueses.

Silva Porto, que escolheu ter o nome da sua terra natal no apelido, foi o pintor de todo um país, no seu próprio tempo.

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