Lara Mesquita vence prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina

 

O texto da peça – que esteve em cena de 10 a 13 de junho no Centro de Artes de Lisboa (CAL) – demonstra “ter uma ideia de teatro”, sendo a sua autora “audaz na forma como aborda ´o elefante na sala` da falta de representatividade de negros na produção profissional no teatro português”, escreve o júri sobre a escolha da autora “que se destacou das demais candidatas”.

“Esta obra dialoga transversalmente com a ausência de um discurso racializado no teatro português” e “fá-lo de forma frontal, do ponto de vista de uma primeira pessoa, dando conta do racismo estrutural, evidente na experiência da autora como artista”, acrescenta o júri constituído pelos dramaturgos Cláudia Lucas Chéu, Miguel Castro Caldas e Rui Pina Coelho.

O prémio, no montante de 500 euros, será entregue à vencedora no dia 18, na Biblioteca de Marvila, em Lisboa, onde as atrizes Rita Cruz e Zia Soares lerão o texto no último dia da iniciativa “Esta noite grita-se”, que integra o Festim, disse à agência Lusa a promotora do galardão.

“Sempre que acordo” é também o texto a ler por aquelas duas atrizes na biblioteca Palácio Galveias e na Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa, respetivamente, nos dias 16 e 17.

O Festim é um festival de leitura de textos interpretados por atores e autores e a 5.ª edição é dedicada em exclusivo à criação dramatúrgica no feminino.

Concorreram à 1.ª edição do prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, que a organização conta vir a atribuir anualmente, 119 candidatas.

“Sempre que acordo” é uma obra em que duas mulheres negras fazem um inventário do trauma do racismo português, numa partilha íntima de biografias, com recurso a provocações intelectuais direcionadas para o leitor.

“Sempre que acordo tenho de lutar pela minha existência ao impô-la”, dizem as personagens no espetáculo que Lara Mesquita pôs em palco e que interpreta com Cirila Bossuet.

Na peça, tudo se centra nessa existência que tem de ser imposta, porque as duas atrizes se foram confrontando, desde a infância e até hoje, com o racismo, ainda que quem o pratique “muitas das vezes nem se aperceba”, disse Lara Mesquita, em entrevista à agência Lusa em janeiro, quando estava prevista a estreia da peça.

“Sempre que acordo” é um espetáculo biográfico, em formato de `conferência-performance`, no qual as duas atrizes vão desfiando episódios das suas vidas e, através deles, “inventariam o trauma do racismo português”.

Apesar de terem crescido em zonas diferentes – Lara cresceu no Barreiro e Cirila em Lisboa e Mem Martins – as duas mulheres juntam-se em palco para partilharem experiências pessoais e histórias que lhes aconteceram, sobretudo na infância mas também no início da idade adulta, nas quais encontram pontos comuns.

A peça assenta assim no “condicionamento” a que ambas foram sujeitas pelo facto de serem negras, e na forma como esse condicionamento afetou a construção das suas personalidades, na forma como veem o mundo e nas possibilidades que têm na vida.

“Sempre que acordo” não é, contudo, “um espetáculo com que se pretenda acusar alguém”, ressalvou, a propósito do primeiro texto que escreveu para teatro.

É um espetáculo para “acontecer alguma mudança significativa”. E para isso “é preciso haver algum desconforto”, porque “só assim é que se pode começar a mudar”, concluiu.

O prémio é acompanhado da edição do texto em livro, numa parceria com a editora Douda Correria.

De acordo com a organização não-governamental Centro Internacional de Mulheres Dramaturgas, 70% das peças produzidas anualmente no mundo são de autoria masculina.

“Quanto à edição de obras, o número é ainda menor. Em Portugal, estimamos que menos de 15% dos textos editados são de mulheres, um panorama que em nada favorece a diversidade e a riqueza da produção artística, impedindo a inovação trazida pelo olhar feminino de criadoras que, sem um estímulo adequado, continuam a estar arredadas dos circuitos necessários para a divulgação das suas obras”, afirmam Miguel Maia e Filipe Abreu, responsáveis pelo “Esta noite grita-se”.

O Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina dirige-se a pessoas que se identificam com o género feminino, independentemente do seu género, acrescenta a organização.

“Esta noite grita-se” é uma iniciativa da companhia Cepa Torta, fundada em 1999 e que tem direção artística de Miguel Maia.

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