Livro sobre cerâmica de autor do século XX revela peças raras

 

‘À Roda – Cerâmica de Autor em Portugal no Século XX’ é ilustrado com cerca de 300 obras de mais de uma centena de autores, “a maioria das quais nunca publicadas”, procurando contextualizar, “pela primeira vez”, a produção nacional produzida num período entre 1895 e 2005.

Com edição da alemã Arnoldsche e apoio da fundação suíça Ceramica-Stiftung e do departamento editorial do antiquário Jorge Welsh, o livro de Pedro Moura Carvalho foi lançado em Lisboa no dia 11 de fevereiro. 

Nele podem ser encontradas criações de artistas plásticos como Júlio Pomar, Martins Correia, Alice Jorge, Canto da Maya, Victor Palla, António Quadros, Pedro Cabrita Reis, Júlio Resende ou Hansi Staël, mas também dos ceramistas do início do século, como Manuel Mafra ou Rafael e Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro. Há ainda outros nomes famosos na arte de trabalhar o barro, casos de Jorge Barradas, Querubim Lapa, Jorge Mealha, Rosa Ramalho, Hein Semke, Bela Silva ou Luís Ferreira da Silva.

“Ligamos muito [em Portugal] à louça das Caldas, ao artesanato português e à azulejaria, naturalmente. Mas a cerâmica de autor, feita por artistas plásticos ou ceramistas, é muito maltratada”, diz Pedro Moura Carvalho, cujo currículo assinala a passagem por vários museus de arte islâmica e asiática.

Para tirar a cerâmica de autor do esquecimento, o investigador empreendeu vários anos de pesquisa, vertida no livro ‘À Roda’, onde partilha, no último capítulo, a coleção particular iniciada há mais de duas décadas. O restante conteúdo, ordenado por ordem cronológica, é ilustrado por peças que pertencem ao Estado, à Igreja e outras coleções particulares. Para este trabalho, entrevistou ainda uma dezena de ceramistas, quatro dos quais entretanto desaparecidos: Luís Ferreira da Silva, Mário Ferreira da Silva, Júlio Pomar e Martins Alves.

“Este trabalho estava por fazer. Não há nada assim em Portugal”, afirma, recordando as dificuldades encontradas, “sobretudo relativamente a certos períodos, por falta de fontes”. 

Pedro Moura Carvalho considera que falta em Portugal um museu nacional de cerâmica – “há o Museu de Cerâmica das Caldas, mas é pequeno e fundamentalmente tem louça das Caldas” – e lembra que o Museu do Azulejo, além da “coleção extraordinária de azulejo”, devia também colecionar cerâmica – “está nos estatutos” -, mas “nunca o fez”. 

Já na Biblioteca de Arte Gulbenkian encontrou “uma bela coleção do período do Estado Novo, que é quando se fizeram as coisas mais extraordinárias, dos finais dos anos 40 até 65”, conta Pedro Moura Carvalho. 

Essa fase em particular está em destaque no livro, dando a conhecer “criações surpreendentes” desse período particularmente frutífero.

“Nesses anos, muitos artistas plásticos portugueses brincaram com o barro e fizeram-se coisas extraordinárias, muito originais e muito independentes do que se fazia na Europa”, refere.

Com ‘À Roda – Cerâmica de Autor em Portugal no Século XX’, que terá distribuição mundial, o historiador de arte vai tentar “colocar Portugal no mapa internacional”, já que a produção de cerâmica tridimensional contemporânea de autor “é basicamente desconhecida”. 

E depois do século XX? Pedro Moura Carvalho mostra-se preocupado com a cerâmica de autor em Portugal no início deste milénio. “Não deixa de ser preocupante o que se está a fazer em Portugal. Falta investir mais em experiências, materiais, design e cultura visual. Muitas coisas que estão a ser feitas reportam a um passado mais ou menos recente”.

Contudo, há sinais positivos, nomeadamente o “interesse que está, enfim, a suscitar o campo das artes decorativas no nosso país”:

“Sempre fomos um povo que tradicionalmente gostava das coisas estrangeiras. Mas as novas gerações estão interessadas em mobiliário, vidro, cerâmica, joalharia e artes aplicadas portuguesas. Espero que este livro traga ainda mais interesse”, conclui.

Leia Também: Histórias de mulheres ceramistas e obras inéditas em exposição

Deixe um comentário