Luís Lupi, o "aventureiro" que criou a 1.ª agência de notícias portuguesa

Intitulado “Jornalista, Espião e Empresário: A vida aventureira de Luís Lupi nos corredores do Estado Novo”, com a chancela da Âncora Editora, o livro foi escrito por Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira Rosa e será lançado no dia 06 de dezembro, na Casa da Imprensa.

“O Luís Lupi foi o fundador da primeira agência de notícias portuguesa”, sublinha, em declarações à Lusa, Wilton Fonseca que foi diretor e diretor-adjunto das agências noticiosas ANOP e NP, tendo também trabalhado na Lusa, entre outros meios.

No entanto, “nós jornalistas, estudantes de jornalismo e as pessoas em geral desconhecem profundamente a história do jornalismo em Portugal e, no capítulo das agências noticiosas, o desconhecimento ainda é muito maior”, prossegue.

Aliás, aponta, “há muitos jornalistas profissionais que não sabem o que uma agência de notícias faz, são capazes de usar o serviço e ignorar como é que esse serviço é feito” e mesmo “na academia, nos cursos, as agências são colocadas num plano inferior, os professores, por nunca terem passado por uma agência noticiosa – e alguns nunca passaram por uma redação de rádio, imprensa ou televisão – pura e simplesmente ignoram essa parcela importante da comunicação social”.

Ora, o trabalho das agências noticiosas, insiste, “está na base de toda a comunicação social” e esse é um aspeto que Wilton Fonseca considera “importante observar na base da vida e obra de Luís Lupi”.

Ao longo de mais de 400 páginas é relatada a história do jornalista e empresário, o seu amor por Nita, tendo perfilhado os seus dois filhos, a sua relação com o poder e até curiosidades como o facto de Lupi ter fotografado o rei do xadrez Alexander Alekhine morto no seu quarto de hotel. Estas fotos foram enviadas para a Associated Press (AP) e não foram publicadas em Portugal.

“Uma coisa muito interessante que podemos observar na sua vida é a eterna tentativa de aproximação ao poder”, refere Wilton Fonseca, sublinhando que Lupi fez isso “durante muitos e muitos anos”, uma prática que “ainda hoje se mantém”, quer em Portugal como em outros países.

Um dos aspetos curiosos “é o facto dele ter trabalhado como correspondente de outras duas agências”, sublinha. Ou seja, além de ter fundado a Lusitânia, Luís Lupi começou a trabalhar para a Reuters, depois para a AP, sendo que representou esta última durante “mais de 30 anos” em Portugal, sendo depois “despedido vergonhosamente”.

O autor destaca ainda uma característica de Lupi, o facto deste “ter tido uma atitude de muito pouca consideração” perante a objetividade, que é “a raiz de toda a produção” das notícias.

Enquanto diretor da Lusitânia, Luís Lupi “de vez em quando escolhia várias cruzadas e empenhava-se nelas de maneira incrível”, acrescenta o autor também de obras como “À sombra do poder – a história da Lusitânia”, entre outros.

O livro relata ainda uma história de quando os Estados Unidos e a Alemanha estavam em guerra, pelo que não havia relações comerciais entre os dois países.

“Antes da guerra começar” é fundada “uma espécie de sucursal” da Associated Press em Berlim, uma empresa alemã.

Entretanto, os dois países entram em guera “mas continuaram a operar com um esquema através desta empresa alemã”, em que a AP de Nova Iorque mandava fotos para Lisboa a Luís Lupi e este fazia cópias, entregava à embaixada da Alemanha que, depois, as enviava em mala diplomática para a Alemanha. E vice-versa.

“Este esquema só foi revelado recentemente, há menos de uma década”, aponta Wilton Fonseca, que considera uma situação “muito estranha”, por durante este período da guerra não haver relatos ou conhecimento de que Portugal estivesse ao corrente da operação.

Estas são algumas das curiosidades do livro que aborda a vida de Lupi.

Questionado como o descreveria em três palavras, Wilton Fonseca diz: “Era um arrivista, um aventureiro” e “um malandro”, nomeadamente no que respeita à questão financeira (de que é exemplo disso as contas da Lusitânia).

“A coisa mais importante que existe no jornalismo de um país é o jornalismo de agência”, insiste, lamentando que esta seja “a mais desprezada”.

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