Mátria é uma ópera que está a ser construída no Douro

 

Esta é a primeira ópera original criada em Trás-os-Montes e Alto Douro e tem estreia marcada para 17 de dezembro, no Teatro de Vila Real, integrada nas comemorações dos 20 anos do Douro Património Mundial da UNESCO, organizadas pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N).

“Mátria — Aqui na Terra” tem libreto de Eduarda Freitas e música do compositor Fernando Lapa.

A agência Lusa acompanhou um dos ensaios num dia que foi também de prova dos figurinos criados especificamente para este projeto por Cláudia Ribeiro. Em palco juntaram-se elementos do coro comunitário, o encenador Ángel Fragua e um dos solistas do espetáculo, Mário João Alves.

Carla Amaral foi a primeira a vestir o traje e a subir ao palco. É professora de Biologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e há 20 anos que canta em coros, o que classificou como um ‘hobby’ que ajuda a libertar do stress. Desta vez o desafio é maior e passa pela participação numa ópera.

“Faço parte do coro da comunidade que vai acompanhar os principais personagens. Representamos o mundo vivo e não vivo que envolve esta paisagem do Douro, que é a paisagem de Miguel Torga”, afirmou à Lusa.

Os elementos do coro são, para o encenador, Ángel Fragua, a “personagem principal” do espetáculo.

Esta é a primeira ópera que vai encenar e, por isso, disse que este é também um “grande desafio”. “Estou a aprender muito com todos, com os solistas, com o coro e vai ser uma experiência fora do normal para mim”, salientou.

Uma das dificuldades, apontou, é a articulação entre todos para se juntarem nos ensaios. “E são dois coros diferentes – um do Porto, outro comunitário aqui de Vila Real -, o que dificulta um pouco juntar toda a gente”, referiu.

São 21 elementos dos coros, comunitário e Moços do Coro, mais sete solistas e cerca de 30 a 40 músicos da Orquestra Mátria, que tem como maestro Jan Wierzba.

Ana Alexandra é irmã de Carla Alves. Trabalha como técnica superior no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), gosta de teatro e de música e, por isso, disse que não hesitou em aceitar o desafio para participar num projeto “extraordinário”, embora ocupe tempo “de família, pessoal e de descanso”.

Carla Santos dá aulas de canto e descreve o espetáculo como “criativo e diferente, enquanto que Cristina Fernandes, estudante de economia na UTAD, afirmou que se sente confortável com o palco, onde sobe para uma experiência “diferente e enriquecedora”.

“O coro vai dar cor, textura, sabor, vai dar cheiro, vai dar tudo à opera. É um palco vazio, só com pessoas e essas pessoas vão ser tudo o que aquela ópera vai contar ao longo dos dois atos e das 14 cenas”, explicou Eduarda Freitas, mentora do projeto e responsável da Inquieta — Agência Criativa.

A Cláudia Ribeiro coube o desafio de criar “do zero” os trajes para as diferentes personagens. Para o coro foi criada uma capa em tons cinzas e cremes, com texturas e tecidos diferentes e que, conjuntamente com o jogo de luzes, podem representar árvores, montanhas, rochas e animais.

“Os fatos são todos eles esculturas, muito baseadas em Trás-os-Montes, são uma grande mistura de conceitos, mas muito cenográfico e escultórico”, afirmou a figurinista, que tem uma carreira de 26 anos a trabalhar para o teatro e televisão.

O solista Mário João Alves veste o papel do embriagado Abel que morre no final do primeiro ato, mas lança “reflexões sobre o isolamento e a distância das coisas do mundo”.

Esta é, para o tenor e compositor com uma intensa carreira internacional e um extenso reportório, “uma experiência especial” que “nasce da vontade de fazer alguma coisa de raiz” e que envolve a comunidade.

“Fiquei muito entusiasmada quando me fizeram a proposta e acho que vai ser algo que eu vou gostar muito de fazer e que me vai ajudar a crescer”, frisou Madalena Tomé, estudante na Universidade de Aveiro e que interpreta a personagem Rodrigo em criança.

O projeto “Mátria” nasceu com um auto desafio de escrita da ex jornalista Eduarda Freitas que juntou num conto original várias personagens da obra de Torga.

A história começa numa aldeia trasmontana onde vive Rodrigo, um rapaz fascinado com as histórias de encantar e que acredita que há um tesouro escondido na barriga do monte para onde leva as ovelhas.

O menino transforma-se num homem inquieto, cruza-se com outras vidas, cada qual com a sua inquietação, e é quando a velhice se cola aos ossos que Rodrigo sente o apelo do regresso a casa.

Depois de uma primeira fase de criação da música, com o apoio financeiro da UTAD, o projeto esteve em ‘stand by’ e chega agora ao palco depois da aprovação de uma candidatura submetida à Direção-Geral das Artes (DGARTES).

 

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