Neves-Neves e Filipe Raposo reinventam ‘As Cortes de Júpiter’ no CCB

O espetáculo, concebido a partir da tragicomédia vicentina, homónima, que tinha texto e alguma música e cuja ação se situa em 1521, tem encenação e adaptação dramatúrgica de Ricardo Neves-Neves, música de Filipe Raposo e resulta de um desafio do CCB ao encenador para adaptar o texto de Gil Vicente por ocasião dos 500 anos da estreia d’As Cortes de Júpiter’.

A nova produção é também a primeira resultante do Laboratório de Ópera Portuguesa, criado pelo CCB em parceria com o Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESSEM) da Faculdade de Ciências Sociais de Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL) e a Academia Portuguesa de Artes Musicais (APARM).

A tragicomédia vicentina, a última a ser apresentada em vida na corte de D. Manuel I – testemunhada presencialmente por Garcia de Resende que avança com o dia 04 de agosto de 1521, para a estreia -, foi idealizada para o casamento e partida da infanta Beatriz, filha do soberano, para Saboia, onde concretizaria o casamento com o duque desta região.

Na obra, a Providência, incumbida por Deus, ordena a Júpiter que concerte planetas e signos para que decorra sem sobressaltos, até ao destino, a viagem da infanta e das 18 naus que compõem a armada ao longo do Atlântico, pelo estreito de Gibraltar e o mar Mediterrâneo.

O mar, os ventos, o sol (Febo) e a lua (Diana) são informados da missão.

Os diferentes elementos da corte, que partiram num pomposo cortejo encabeçado pelo próprio rei, seguido pela rainha, pelo príncipe e infantes, em direção à Sé e, de lá, para a casa da rainha viúva (de João II), Leonor, irmã do soberano (Manuel I), para dela se despedirem, acabam por acompanhar a frota de Beatriz até à foz do Tejo, nadando umas vinte léguas, metamorfoseados em peixes, até ouvirem o canto ameaçador de trinta mil sereias, vindo do mar alto.

Perante a ameaça, Marte é chamado e recebe a ordem de proteger a esplendorosa armada de dezoito naus.

Como amigo e admirador dos feitos portugueses, Marte recita louvores entusiastas a Portugal. No fim, uma moura encantada, evocada aos sons de um romance, traz e entrega à duquesa de Saboia prendas de condão: um anel, um dedal e um terçado.

Para Ricardo Neves-Neves, para quem esta fantasia vicentina foi uma revelação, pôr o espetáculo em cena foi um “desafio” aceite de “pés juntos” ao saber que os protagonistas da ação eram o mar, os ventos, o sol e a lua.

Sem conhecer os textos de Gil Vicente, que não fossem os mais ensinados no ensino secundário ou superior, o encenador passou o verão a ler as comédias e as tragédias do pioneiro do teatro português, apercebendo-se de um “lado lírico” no autor que desconhecia.

Avançar com um texto, que é uma tragicomédia, para uma ópera, sabendo onde encaixar e como “coser” as músicas que existem no texto original com as compostas por Filipe Raposo, conferindo um toque contemporâneo ao espetáculo, foi outro dos desafios, disse o encenador, no final de um ensaio parcial, para a imprensa, do espetáculo.

Uma tarefa que foi facilitada pelo compromisso com Jenny Silvestre, coordenadora artística e musicológica do Laboratório de Ópera Portuguesa, já que o objetivo era elaborar uma ópera “onde, em princípio, não havia ópera”, disse.

Depois de muitas reuniões com Filipe Raposo, Ricardo Neves-Neves percebeu que, apesar de o texto vicentino original conter algumas músicas, havia “espaço de liberdade para tomarem decisões” e não se cingirem aos “estudos de ninguém nem às considerações que já estavam feitas”, referiu.

Além disso, “Jenny tinha-nos passado muitas coisas que já sabia, como uma recolha das músicas que podiam constar do espetáculo, pelo que iniciámos o trabalho com o texto original, as referências das músicas históricas”, seguindo-se processo de pesquisa sobre o tipo de linguagem musical a utilizar, que foi o género “contrapontístico”, disse Filipe Raposo, tomando assim por ponto de partida a expressão da época, sobre a conjugação das vozes e as leis da harmonia.

Para Filipe Raposo, o desafio à partida foi também o de saber “como coser [as composições], coser de forma que haja uma linha condutora do princípio ao fim sem que haja grandes separações”, observou.

Daí que tenha elaborado um trabalho em que “pegou na música modal, transformando-a ligeiramente em música modal cromática, o que traz contemporaneidade ao que escutamos no trabalho final”, acrescentou o compositor.

“E há um diálogo em que ora estou com um pé naquilo que é a linguagem quinhentista, ora estou com o pé naquilo que é a minha própria linguagem, que é a linguagem contemporânea”, frisou.

E apesar de terem carregado para o espetáculo todas as referências que vêm do passado, a ópera acaba por se tornar contemporânea, o que, segundo Jenny Silvestre, se deve também à “plasticidade e flexibilidade” do texto vicentino.

Gil Vicente é o homem que introduz “o drama em música”. “Nós estamos aqui a falar em ópera, mas, na realidade, a tradição portuguesa é do ‘drama em música’ e isto que estamos aqui a fazer é um drama em música; é uma obra com texto falado e cantado como acontece nas zarzuelas”, disse.

“E de facto queremos recuperar um pouco desse património, que não é só espanhol, é ibérico, e que começou com Gil Vicente”, frisou.

Em termos plásticos, a cena em palco centra-se nuns painéis que se vão voltando e onde estão os cantores, enquanto ao fundo um filme animado vai reproduzindo a armada que acompanhou a viagem da infanta Beatriz, bem como dos peixes, sereias, entre outras personagens que a seguiram.

O espetáculo começa, contudo, com descrições de naufrágios. Porque Ricardo Neves-Neves queria dar a imagem de que, se as cortes não tivessem sido convocadas, os naufrágios podiam ter ocorrido.

Se não fosse a intervenção dos deuses e dos elementos, a viagem podia ter corrido muito mal, até porque a “peste negra ia nos barcos”, indicou.

E se para o encenador o texto original até podia ter sido uma prisão, já que cada frase tem cinco versos, acabou por encontrar “a beleza desse engenho, que é duplamente musical”.

“Porque mesmo quando o texto é falado, cada verso tem sete sílabas, tem rima sempre no final, muitas vezes rima interna, e, ao final de cinco versos, há um ponto final. O que confere sempre melodia ao texto mesmo quando não existe música do Filipe ou música antiga”, concluiu.

Com direção musical de António Carrilho, coordenação da recuperação histórica musical de Nuno Raimundo e ‘correpetição’ de Jenny Silvestre, “As Cortes de Júpiter” têm cenografia José Manuel Castanheira, figurinos de Rafaela Mapril, desenho de luz de Alexandre Coelho, vídeo de Rute Soares e sonoplastia Sérgio Delgado.

Como solistas contam-se os elementos do Alma Ensemble, composto por Isabel Fernandes, Liliana Sebastião, Rita Filipe, Teresa Projecto, Frederico Projecto, João Barros, Tiago Amado Gomes e Tiago Mota, dirigidos por Filipa Palhares.

Na interpretação musical nesta versão encontra-se o ensemble La Nave Va, composto por Catarina Bastos (violino), Gabriela Barros (viola), Joana Tavares (viola), César Gonçalves (violoncelo), Duncan Fox (contrabaixo), António Carrilho (flautas de bisel), Gonçalo Freire (flautas de bisel), Stephan Mason (trompete), Armando Martins (trompa), Richard Buckley (percussão), Helena Raposo (alude, vihuela, tiorba), Helder Rodrigues (trombone) e Jenny Silvestre (cravo).

O espetáculo é uma produção conjunta do CCB, Cineteatro Louletano, Academia Portuguesa de Artes Musicais, Culturproject e Teatro do Eléctrico, e vai ficar em cena no Pequeno Auditório do CCB, nos dias 5 e 6 de fevereiro, às 19h00.

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