O Dia da Mãe é, para muitos, agridoce. Eis 8 livros sobre dor e ausência

À semelhança do Dia do Pai, o Dia da Mãe não é, necessariamente, uma ocasião feliz. Para muitos, o dia 7 de maio amplifica os sentimentos associados ao luto, à perda, e à ausência, tomando diversos contornos.

Se muitos passaram pela dor visceral de perder um filho, ou até mesmo de uma gravidez que não progrediu, outros já não têm mãe ‘a quem dar prenda’, ou nunca o puderam fazer, dada a sua ausência.

Assim, numa sociedade marcada pelo positivismo e capitalismo levados (quase) ao extremo, quem já vivenciou uma experiência traumática associada à figura maternal fica remetido às margens, procurando conter os sentimentos em surdina, face ao ‘barulho’ que as redes sociais (e não só) proporcionam.

Nessa linha, o Notícias ao Minuto propôs-se, mais uma vez, a compilar algumas obras que abordam sentimentos de dor visceral, de perda e, sobretudo, de amor associado a uma mãe, em todas as suas formas, desde poesia à ficção, e passando ainda pela não ficção.

Confira abaixo a lista curada pelo Notícias ao Minuto:

Lágrimas no Mercado, Michelle Zauner© D.R.  

Em ‘Lágrimas no Mercado’, a vocalista da banda Japanese Breakfast leva-nos pelo “caminho sinuoso para saber quem é”, que encontrou após a morte da mãe, quando tinha 25 anos. Apesar do luto e da dor, a artista retrata, com humor, a ligação que estabeleceu “com a sua própria identidade, com os gostos, o idioma, a cultura e a música que são a sua herança coreana”. Essencialmente, “tudo o que a mãe lhe deixara”.

 

O Luto É a Coisa com Penas, Max Porter© D.R.  

Num momento de desespero, marcado pela morte súbita da mulher, pai e filhos são visitados pelo Corvo, atraído pelo luto da família, que ameaça ficar até que não precisem mais da sua ajuda. A passagem do tempo, aliada à “tristeza insuportável que os engoliu no seu apartamento londrino perante um vaivém de amigos bem-intencionados e um futuro de absoluto vazio” mostra, em ‘O Luto É a Coisa com Penas’, como esta unidade de três pessoas começa a ‘curar-se’, transformando a dor em memória.

 

Noites Azuis, Joan Didion© D.R.  

Descrito como a continuação de ‘O Ano do Pensamento Mágico’, ‘Noites Azuis’ — as longas noites em que os crepúsculos se tornam longos e azuis e sinalizam o solstício do verão, “o oposto da morte da claridade, mas também o seu alerta” — retrata a morte de Quintana Roo, filha de Joan Didion, ao mesmo tempo que dá um vislumbre comovente dos “pensamentos, medos e dúvidas sobre a maternidade, a doença e o envelhecimento” da autora.

 

O Tempo é Uma Mãe, Ocean Vuong© D.R.  

Ocean Vuong procura, através da poesia, o significado da vida entre os ‘destroços’ deixados pela morte da mãe. Nessa linha,  reflete sobre o “paradoxo de permanecermos sentados com mágoa”, ao mesmo tempo que tentamos encontrar “a determinação necessária para a ultrapassar”. Mergulhando em memórias, e em sintonia com os temas de ‘Na Terra Somos Brevemente Magníficos’, ‘O Tempo é Uma Mãe’ debruça-se sobre a perda, o significado da família, e o custo de ser um produto resultante de uma guerra nos Estados Unidos.

 

O Pintassilgo, Donna Tartt© D.R.  

Theo, de 13 anos, sobrevive inexplicavelmente ao acidente que vitimou a mãe, no dia em que visitavam o Metropolitan Museum, em Nova Iorque. Abandonado pelo pai, Theo é levado para a casa da família de um amigo rico. Contudo, o adolescente sente dificuldade em adaptar-se à sua nova vida em Park Avenue, encarando a falta da mãe como uma dor intolerável. Uma pequena e misteriosa pintura que a mãe lhe tinha mostrado no dia em que morreu torna-se uma obsessão, conduzindo-o a entrar no submundo do crime, já na idade adulta. ‘O Pintassilgo’ é, assim, descrito como “um livro poderoso sobre amor e perda, sobrevivência e capacidade de nos reinventarmos”.

 

Ainda Bem que a Minha Mãe Morreu, Jennette McCurdy© D.R.  

“Jennette McCurdy tinha seis anos quando fez a sua primeira audição. A mãe queria torná-la uma estrela e ela não a queria desiludir, por isso sujeitou-se às restrições calóricas e a vários makeovers caseiros.” É desta forma que ‘Ainda Bem que a Minha Mãe Morreu’ nos é introduzido, relatando todos os detalhes da “espiral de ansiedade” em que a atriz se viu mergulhada ao ser projetada para a fama, com a participação em iCarly. E os problemas só se agravam quando a mãe morre de cancro. Na verdade, “seriam precisos anos de terapia, e abandonar os palcos, para a atriz recuperar e decidir, pela primeira vez, fazer o que queria”. Repleto de humor negro, esta história de resiliência retrata os abusos de que Jennette foi alvo por parte da mãe, mas também “o prazer de lavar o próprio cabelo sem ajuda”.

 

Filho da Mãe, Hugo Gonçalves© D.R.  

“Um texto autobiográfico, tão comovente quanto surpreendente, sobre o que é crescer sem mãe. Lê-se como um romance mas é feito de vida.” ‘Filho da Mãe’ conta a história de Hugo Gonçalves que, perto de fazer 40 anos, recebeu o testamento do avô materno dentro de um saco de plástico, transportando-o para a tarde em que recebeu a notícia da morte da mãe, a 13 de março de 1985, quando regressava da escola primária. A obra retrata, assim, a busca daquilo “que o tempo e a fuga o tinham feito esquecer ou o que nem sequer sabia sobre a mãe”, durando mais de um ano. A conclusão foi esta: “Quem quer escrever sobre a morte acaba a escrever sobre a vida.”

 

Todos os Amanhãs, Mélissa Da Costa© D.R.  

‘Todos os Amanhãs’ retrata o refúgio de “janelas fechadas, escuridão e silêncio” de Amande Luzin na zona rural francesa de Auvergne, onde se esconde “para viver o seu luto”. A jovem, que perdeu a filha de quem estava grávida e o marido, raramente sai à rua, evitando a interferência da luz na sua vida. Mas tudo muda quando encontra os diários e calendários da antiga proprietária da casa que arrendou, a senhora Hugues. “Numa caligrafia redonda e elegante, há instruções detalhadas para os cuidados do jardim e para a confeção de receitas, uma espécie de almanaque caseiro”, sendo que, a cada semente plantada, Amande “encontra um rebento: no pântano da sua dor, cada amanhã traz uma pequena e perfumada promessa de futuro”.

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