Pedro Baptista propõe reflexão em palco com ‘Oração do veado sereio’

A situação de precariedade em que vivem os artistas, agravada durante a pandemia de covid-19, e situações de discriminação, nomeadamente relacionadas com sexualidade, de que são alvo, são igualmente temas que Pedro Baptista quer abordar, no espetáculo a solo que irá representar no palácio Visconde da Graça, no Intendente, disse criador à agência Lusa.

‘Oração do veado serreio’ surge depois de Pedro Baptista ter visto cancelado, devido à pandemia de covid-19, um espetáculo que concebera para dez intérpretes e, como não tem apoios financeiros de qualquer ordem, decidiu pôr de pé este para um só intérprete, para falar sobre problemas com que se tem deparado no último ano e meio, acrescentou.

São problemas que atingem outros criadores e artistas que, embora já desenvolvam trabalho há anos, têm cada vez mais dificuldades em serem reconhecidos e financiados, disse.

“Não quero que ‘Oração do veado sereio’ caia numa espécie de purga individual, mas sim [que levante] questões que têm estado latentes neste último ano e meio, porque parece que a pandemia trouxe uma onda de raiva às pessoas”.

O espetáculo resulta também da “frustração” que Pedro Baptista sente ao fim de “seis, sete anos a querer trabalhar, a fazer grandes tentativas para concorrer a apoios e a ouvir sempre ‘nãos'”, questionando-se até que ponto “se tem de provar que estamos a começar”, observou.

Através de um espetáculo “ritualístico e de caráter experimental”, propõe-se falar sobre “que caminho se abre para todos os artistas, assim como para todas as pessoas que têm sido alvo de violência”, desde a declaração da pandemia, no início de 2020, há quase 20 meses.

Com um lado “cínico ou não cínico”, o criador disse também que irá montar “uma árvore de Natal” no espetáculo, já que esta época festiva está a aproximar-se e é uma quadra em que se apela ao espírito de união entre as pessoas.

Com criação, interpretação, cenografia, desenho de luz e produção de Pedro Baptista, que “se tem aguentado devido ao trabalho enquanto ator”, “Oração do veado sereio” tem apoio à criação de Mário Coelho e da estrutura Largo Residências.

Pedro Baptista, que dedica este trabalho a todas “as crianças-veado e a todos os sereios pelo universo fora”, disse ainda que neste espetáculo exporá um olhar sobre o seu percurso enquanto artista e cidadão, questionando igualmente o que é a resiliência e quais os limites das pessoas.

No espaço do salão nobre do palácio Visconde da Graça, Pedro Baptista apresentar-se-á carregado de sacos de supermercado, como uma criança que tenta criar um objeto a partir de peças de Lego, disse.

Entre conversas ao telefone e momentos de solidão, Pedro Baptista disse que tentará erguer um quarto que, em última instância, poderá ser só um altar de acumulação de objetos pessoais no qual o “veado sereio estará lá a orar para todos os que quiserem visitá-lo”.

O espetáculo tem sessões de quarta-feira a sábado, às 21:00, e, ao domingo, às 18:00, após o que haverá uma conversa com o público.

Com mestrado em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema, Pedro Baptista tem trabalhado como ator, nomeadamente na mala voadora e nos Artistas Unidos, onde o último trabalho foi na peça ‘Morte de um caixeiro-viajante’.

‘Paisagem’ (2015), para o Teatro da Comuna, ‘Prosopopeia’ (2018), no Teatro da Politécnica, ‘A Gaivota’ (2019), no espaço Rua das Gaivotas6, e ‘Suspiria’ (2020), no Centro de Artes de Lisboa (CAL-Primeiros Sintomas), foram trabalhos que assinou como autor e encenador. Em 2022 e 2023 conta apresentar uma nova criação no CAL e estrear-se na linguagem cinematográfica com a realização da primeira curta-metragem.

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