Pedro Barateiro explora a ideia da transformação em ‘É só uma ferida’

Nesta mostra individual, com curadoria de João Mourão e Luís Silva, que ficará patente na Fundação Carmona e Costa até 17 de julho, é apresentado o filme de animação “Monólogo para um Monstro”, com a participação do músico Conan Osiris, que dá voz à personagem.

A animação foi produzida pela equipa da produtora Sardinha em Lata, na qual a animadora Vanessa Namora Caeiro adaptou os desenhos de Pedro Barateiro, e a banda sonora original foi produzida por BLEID.

“É só uma ferida” apresenta ainda duas séries de desenhos e um conjunto de esculturas, “trabalhos que remetem para uma ideia de transformação, como se algo neles estivesse inacabado, ou num infindável processo de metamorfose”, segundo uma nota de imprensa da Fundação Carmona e Costa.

Uma das figuras que aparece de forma recorrente nestes desenhos é uma personagem aparentemente monstruosa, apenas com cabeça e braços, a quem Barateiro se refere como “data monster” (“monstro de informação”, na tradução do texto descritivo).

Esta figura funciona como “um dispositivo à vez narrativo e político, uma alegoria contemporânea e autorreferencial, a que o artista recorre para pensar sobre si próprio, e sobre outros, como parte da crescente cultura de empreendedorismo, validada e valorizada social, cultural e afetivamente pelas sociedades contemporâneas”, explica a curadoria.

“O empreendedor é assim essa figura que adquire um lugar de preponderância na narrativa da modernidade e no imaginário coletivo, à medida que o capital intelectual e a produção imaterial se sobrepõem em relação à tradicional produção material”, adianta ainda.

Para Barateiro, o empreendedor “é a metáfora perfeita para refletir sobre a forma como a narrativa neoliberal fragmenta identidades e dinâmicas de cariz mais comunitário ou social, responsabilizando o indivíduo e separando-o de redes de apoio coletivas”, acrescentam.

Foi o trabalho de pesquisa e reflexão desenvolvido nestas duas séries de desenhos que abriu, por sua vez, um campo narrativo que conduziu à realização do filme de animação “Monólogo para um Monstro”.

O filme, produzido especificamente para esta exposição, contou com o apoio da Fundação Carmona e Costa, e parte do desejo de Barateiro de regressar ao formato da animação, justificam os curadores.

Em “Monólogo para um Monstro”, uma figura dirige-se ao espetador num tom pessoal e íntimo, revelando a transformação pela qual está a passar, assumindo uma identidade não binária, e falando da maneira “como a informação que capta e gere, acaba por transformar indelevelmente quem é, e como se relaciona com o mundo à sua volta”.

Barateiro, artista nascido em Almada, em 1979, “interessa-se pela construção do indivíduo através de uma subjetividade ampliada no quadro do capitalismo tardio. A cultura de empreendedorismo, que tem definido o sistema capitalista em que vivemos, alimenta a ideia dissimulada de que o indivíduo é o único responsável pelo traçar do seu caminho, lutando contra tudo e todos no processo”.

“Neste sistema, a comunidade é feita por antagonismo e conflito e não por união ou solidariedade. O aperfeiçoamento (interior e exterior) do corpo humano e das suas tecnologias demonstram a necessidade dos agentes humanos se sentirem ainda mais fortes, mais eficazes, mais produtivos, alimentando um sistema de competição que beneficia apenas a produção abstrata de capital”, acrescenta, sobre o contexto do quadro conceptual do artista.

A obra de Barateiro “reflete assim a necessidade crescente de desconstruir os mecanismos binários e opressivos do ocidente, começando pelo género e pelo poder e violência exercidos sobre os agentes humanos e não humanos, e que passa por todas as formas de colonização do imaginário e dos recursos naturais”, sustentam.

Por ocasião da exposição será publicado um novo livro editado pelo artista, e publicado pela Sistema Solar/Documenta e Mousse Publishing.

Em 2019, Pedro Barateiro apresentou no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, a performance-instalação “A Viagem Invertida”, tendo como paisagem a exploração das minas de lítio em Portugal, no âmbito da 2.ª edição da BoCA – Bienal de Artes Contemporâneas.

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