Quorum Ballet vive "bolha" a preparar espetáculos para estrear online

“Os próximos tempos vão ser muito difíceis. Esta situação é uma catástrofe para a cultura e para a dança, mas não será isto que nos vai parar”, garantiu o bailarino e coreógrafo Daniel Cardoso, diretor artístico da companhia, em entrevista à agência Lusa.

A equipa de sete bailarinos está a funcionar “em bolha”, todos a serem testados ao covid-19, com os contactos reduzidos ao mínimo e, além disso, a fazer ensaios sempre de máscara, uma fórmula que tem assegurado proteção à companhia contra o vírus.

“O ´online´ não é o ideal, mas vamos continuar a criar e a reinventar-nos, para não parar o contacto com o público”, avaliou, acrescentando que a companhia “está habituada à adversidade e a uma falta de apoio estrutural”, e, como sempre fez, vai procurar novas formas para conseguir “continuidade, e um futuro ao vivo”, salientou o diretor artístico.

No início de 2021, surgiu o convite por parte da Câmara Municipal da Amadora para a companhia integrar a iniciativa da Área Metropolitana de Lisboa Mural 18, um projeto de programação cultural em rede abrangendo os 18 municípios, com financiamento europeu, iniciado em janeiro, e a decorrer até setembro, para apoio da comunidade artística, nas áreas da música, teatro, poesia, dança, leitura, exposições e performances.

Foi através deste projeto que a companhia apresentou em ´live streaming´, em janeiro, o espetáculo “Romeu & Julieta”, e, em fevereiro, o espetáculo “Sagração da Primavera | Made in China”.

A 27 de março, a companhia conta estrear uma nova peça, “Beethoven”, uma dupla criação da autoria de Barbara Griggi e Daniel Cardoso, que será apresentada a partir do Cine-Teatro D. João V, na Damaia, no concelho da Amadora.

“Como somos um grupo muito pequeno, em vez de parar e de esperar que a pandemia passe, aproveitámos esta altura tão complicada para nos reinventarmos, continuar a criar e a crescer. Temos de pensar em novas produções, usando as novas tecnologias para chegar ao público”, disse o coreógrafo à Lusa.

Para abril, e com coreografia de Daniel Cardoso, haverá nova estreia absoluta para os mais novos, sob o título “No tempo dos meus avós”, a apresentar no auditório dos Recreios da Amadora, também em ´live streaming´, e que esperam que seja já presencialmente, “caso estejam reunidas as condições para tal”, sempre de acordo com as normas exigidas pela Direção-Geral da Saúde.

Harold George, coreógrafo belga, foi convidado para criar — ainda dentro do projeto Mural 18 – outro novo espetáculo “Push and Pull”, dançado pelo Quorum Ballet, nos dias 28, 29 e 30 de maio.

A vida atual, com bailarinos “a fazer apenas as deslocações de casa para os ensaios”, já está longe do quotidiano do outono do ano passado, quando a expansão da pandemia aligeirou, e a companhia ainda estreou “Romeu & Julieta” presencialmente – depois de ter sido adiado por duas vezes – no cineteatro D. João V.

Depois, seguiu em digressão pela Dinamarca com espetáculos em várias cidades do país, como Aarhus, Vejle, Aalborg, Albertslund e Esbjerg.

Daniel Cardoso recorda, desde sempre, a área da dança com pouco apoio e a viver em crise, mas a paralisação do setor da cultura em geral provocada pela pandemia “superou tudo”: “Continuamos a trabalhar desta forma mais limitada, mas estamos preocupados com o futuro, porque mesmo que a situação melhore nos próximos meses, a área artística terá uma situação grave durante muitos anos”.

“Vai ter, de certeza, um impacto no volume de público. O vírus pode desaparecer, mas as consequências vamos a senti-las na cultura muito depois. As pessoas podem não vir a ter capacidade financeira para comprar bilhetes para espetáculos”, teme o artista.

A companhia candidatou-se aos apoios da Direção-Geral das Artes em 2019, mas não lhes foi atribuído qualquer valor, embora tenham ficado elegíveis, como muitos outros artistas e estruturas.

“Soubemos que poderemos receber apoios em 2021 e 2022, mas não recebemos ainda nenhuma comunicação oficial”, disse o responsável pela companhia que se estreou em dezembro de 2005 nos Recreios da Amadora, onde tem residência, com a apresentação de quatro peças de um programa de Daniel Cardoso.

Desde então, tem vindo a apresentar-se em Lisboa e em digressões nacionais, por Santa Maria da Feira, Loulé, Campo Maior, Portalegre, entre outros concelhos, e, no estrangeiro, nos Estados Unidos, na Dinamarca, e na China.

“Relações”, “Uma Viagem Mágica ao Mundo da Dança”, “Quorum Ballet/Corvos”, “Clepsydra”, “Correr o Fado” e “S.Ó.S” são alguns dos programas já produzidos pela companhia, que tem também realizado oficinas com crianças, em parceria com escolas e câmaras municipais.

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