Realizador britânico quer organizar novo ‘Rock Against Racism’ em 2024

“Precisamos outra vez de um ‘Rock Against Racism’ em Londres ou em Belfast. Se já conseguimos organizar concertos temos de conseguir fazer um espetáculo maior e com grandes bandas e com bandas novas que possam atrair a atenção para o problema do racismo neste país”, disse à agência Lusa o realizador Richard Davis. 

O movimento ‘Rock Against Racism’ (RAR), entre 1976 e 1981, envolveu diretamente, “lado a lado, a ‘subcultura’ Punk e New Wave e a força dos músicos de Reggae contra o aumento “da força organizativa” da National Front (extrema-direita).

O documentário de mais de duas horas tem como inspiração “as mensagens” da banda britânica Clash: consciência política contra a violência, contra o racismo e o fascismo, a favor da criatividade.

“Depois da exibição em Belfast, Irlanda do Norte, onde me disseram que o trabalho devia ser exibido nas escolas, o filme vai começar ser exibido em todo o lado mas queremos fazer um grande concerto anti-racista em Londres com grandes nomes, com discursos e artistas porque a música tem a virtude de mostrar a realidade política e social. A música e a cultura estão sob ataque neste momento e queremos lutar contra isto”, acrescentou.

Para Richard Davis, 64 anos, atualmente a música está “fragmentada” e considera que “o negócio da música” não reflete a realidade política, social e económica.

“O ‘rock’n’roll’ era feito por jovens e destinado a jovens, agora temos jovens a ouvir ‘rock’n’roll’ feito por pessoas mais velhas o que muda toda a dinâmica porque a rebeldia mais forte vem sempre do coração dos mais novos. A rebeldia dos jovens explica o movimento ‘Rock Against Racism’ ou bandas como os Clash ou o Punk, porque havia ligação entre o palco, os músicos e o público”, afirma, criticando o alheamento atual das editoras.

“O que eu sei é que os jovens rebeldes não têm músicos rebeldes porque as editoras viraram as costas a todas as dinâmicas que ajudaram a criar movimentos importantes ou a criar consciências. Qual é o papel da música agora? As lutas não terminaram e tem de haver esperança e temos de mostrar as nossas posições contra o racismo”, acusa o realizador e ativista político britânico.    

O documentário – frontalmente crítico da extrema-direita britânica e norte-americana – incluiu, entre outros, depoimentos de músicos como Paul Simonon, ex-baixista dos Clash, Glen Matlock, fundador dos Sex Pistols, Tony Robinson da banda reggae Aswad, Mykaell Riley dos Steel Pulse, o cantor Paul Simmonds e o ator Ray Gange, protagonista do filme ‘Rude Boy’ dos Clash (1980).  

‘On Resistence Street’ – de produção independente – inclui ainda a participação do historiador britânico Rick Blackman autor do livro ‘Babylon’s Burning’ sobre os vários movimentos anti-racistas no Reino Unido depois da Segunda Guerra Mundial e que foi apresentado recentemente em Portugal.

O documentário foi igualmente uma resposta direta à “provocação” do ex-primeiro-ministro conservador Boris Johnson que declarou numa entrevista televisiva que é um “fã incondicional” dos Clash.

“Quando Boris Johnson declarou que os Clash eram o grupo preferido, pensámos que tínhamos de fazer alguma coisa sobre o assunto. Nas redes sociais, os grupos de fãs não refletem o que a banda na realidade significava e descobri que muita gente estava a aproveitar a história da banda para fins completamente contrários aproveitando para infiltrar mensagens contrárias, tal como aconteceu com o Brexit”, explica Richard David.

Para o realizador, o documentário não é mais um “filme” sobre o Punk e os Clash mas “pretende” projetar-se no presente e no futuro e lançar as bases para promover a “música e a cultura” aproveitando referências que demonstraram ser “positivas”.

“Eu conheci Joe Strummer [vocalista dos Clash] quando tinha 20 anos. Eu tinha sido condenado a uma pena de prisão por me ter envolvido em confrontos com a polícia e quando saí da cadeia conheci Mick Jones [guitarrista dos Clash] que, de uma forma muito simpática, me deu um livre passe para todos os concertos da ’tournée’ do álbum ‘London Calling’ [1979]”, confessa frisando que a “música rebelde” acabou por lhe traçar um novo rumo de vida. 

“Um dia tive uma conversa com Joe Strummer e ele disse-me: ‘A prisão é para estúpidos [‘mugs’] e para os combatentes pela liberdade [‘freedoom fighters’}. Faz qualquer coisa criativa, arranja uma guitarra e canaliza a tua energia em alguma coisa que seja criativa e positiva. Este é o meu conselho. Eu levei à letra o conselho de Strummer que transformou a minha vida: ser criativo e conseguir um rumo de vida. Comecei a cantar no metropolitano e agora faço filmes”, conclui Davis.      

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