‘Rosas de Maio’ a partir das ‘Novas Cartas Portuguesas’ estreia no Porto

Em cena até domingo no Teatro Municipal Rivoli, a peça atravessa “vários tempos, evoca imagens e fragmentos e reativa arquivos”, contou hoje à Lusa a criadora e encenadora, Luísa Sequeira.

Além disso, a peça recria ou cria vários momentos históricos e evoca várias mulheres que foram “muito importantes” na história, salientou a artista, que é também intérprete, com Carolina Rocha e Mia Tomé.

“Rosas de Maio” olha para o passado e resgata discursos que foram censurados, sublinhou Luísa Sequeira.

A peça parte de ‘Novas Cartas Portuguesas’ para “tecer dramaturgicamente um conjunto de novos desdobramentos, criando um espetáculo híbrido e polissémico, um lugar de possibilidades de articular tempos e fragmentos que oscila entre o documental e a performance”, como se pode ler na sinopse da mesma.

“É uma peça constelação que coloca em movimento através do cinema expandido a própria materialidade do arquivo, cruzando e resgatando palavras e ações de mulheres que ao longo da história tiveram os seus discursos censurados, rasgados e apagados pelo regime opressivo e patriarcal”, acrescenta o mesmo texto.

A peça aborda também o processo de resistência das classes que foram, de certa foram, colocadas à margem, frisou.

Falando numa peça “transmedia”, Luísa Sequeira, que é artista, realizadora e curadora de cinema, referiu que a peça trabalha “fragmentos e memórias” através de videoarte e instalações.

A encenadora realçou que as “Novas Cartas Portuguesas” estão “muito atuais” e fazem “muito sentido” nos dias de hoje, ressalvando que a memória é “muito importante”.

“Precisamos de nos relembrar constantemente do que aconteceu e do que está a acontecer”, entendeu.

‘Novas Cartas Portuguesas’, escrita por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, a partir das cartas de amor dirigidas a um oficial francês por Mariana Alcoforado, constituiu-se como um libelo contra a ideologia vigente no período pré-25 de Abril, que denunciava a guerra colonial, as opressões a que as mulheres eram sujeitas, um sistema judicial persecutório, a emigração e a violência fascista.

Começou a ser escrita em maio de 1971 e foi publicada em abril de 1972, tendo sido banida pelo então regime e as suas autoras levadas a julgamento.

O livro que se assumiu como um marco na história do feminismo, da literatura portuguesa, da oposição ao regime e da luta pela liberdade, após passar o período conturbado que envolveu a sua publicação, atravessou décadas quase como uma inexistência em Portugal, considerou Maria Teresa Horta, a única das “Três Marias” ainda viva, em declarações à Lusa em abril deste ano, acrescentando não compreender esta situação.

“Ninguém ligou nenhuma às ‘Novas Cartas Portuguesas’ em Portugal, agora, de repente, enlouquece tudo”, disse à Lusa na altura, acrescentando: “Foram escritas há tantos anos. Depois esgotou, mas ninguém fez nada, e de repente, de súbito, de cinco em cinco minutos falam das ‘Novas Cartas’, a pessoa fica perplexa”.

As ‘Três Marias’ chegaram a ir a julgamento, que teve início a 25 de outubro de 1973, e só não foram condenadas porque, após sucessivos incidentes e adiamentos, se deu a Revolução de 25 de Abril de 1974.

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