Sistema neoliberal é origem da "desordem" da democracia

 

Jornalista e autora turca a viver na Croácia desde 2016 devido à “insustentável” situação no seu país, editou recentemente em Portugal o livro “Unidos: 10 escolhas para um agora melhor” (Temas e Debates, 2021) que condensa as suas reflexões, no seguimento de “Como perder um país” (Temas e Debates, 2019), já definido como um “grito de alarme”.

A crise do capitalismo, a emergência dos populismos de direita e dos fascismos, a crise climática, o estado da democracia, são temas fortes desta obra, muito elogiada pela crítica, apesar de admitir que “escrever hoje sobre como salvar as democracias se tornou quase numa indústria intelectual”.

Ece Temelkuran, e ao contrário daqueles que pensavam ser possível preservar o essencial dos sistemas democráticos caso os líderes autocráticos fossem arreados do poder, considera que o problema central tem um nome: neoliberalismo.

“O atual estado da democracia está em desordem porque vivemos num sistema neoliberal”, argumenta.

“Muito poucos fazem a pergunta se a democracia pode sobreviver, ou ser compatível com um sistema capitalista. Sobretudo após a década de 1980, a máquina da propaganda tornou-se tão poderosa que a maioria do mundo começou a acreditar que o capitalismo é o estado natural da humanidade”, acescenta.

A eliminação de ativistas e líderes sindicais, a prisão de intelectuais, a exclusão das “ideias progressistas” pelos ‘media’ dominantes contribuíram para o atual cenário, mas a escritora turca deteta novos sinais.

“Por fim, chegamos à situação em que não vimos o facto óbvio de que o contrato fundamental do capitalismo é contraditório com o contrato fundamental da democracia. Porque no sistema neoliberal nem todos são iguais… Não há igualdade, não há justiça social, não estamos representados de forma igualitária, em particular os pobres face aos ricos”, defende.

Nesse sentido, assinala que quem se preocupa com a atual situação também terá de “reconsiderar” o sistema capitalista, e não apenas nas “periferias”, exemplificando com o Egito, Turquia ou Rússia, mas em particular nos países com democracias consideradas mais maduras.

“Devido ao principal argumento do capitalismo de que ‘não existe alternativa’, começámos a perder a fé em nós próprios, a fé na nossa capacidade para mudar o mundo, em criar um outro sistema. E vivemos num mundo onde os números já não convencem as pessoas”, prossegue.

“Tentei começar a convencer através das palavras, chegar perto do coração da humanidade e recordar como são capazes de mudar o sistema. E necessitam de pontos de referência, éticos, morais…”, adianta.

A jornalista e escritora turca, 48 anos, deteta uma atual fase, também assinalada pela crise pandémica, em que se tenta reciclar, consumir menos, formas de contrariar o sistema, para além das tentativas de revoluções. Duas opções que considera limitadas. “São muito paralisantes, temos de encontrar uma outra forma, uma terceira opção para mudar o sistema. Foi por isso que escrevi o livro”.

Num mundo em guerra, onde “todo o Sul está a tentar dirigir-se para Norte e por várias razões, onde se acentual as polarizações no interior dos países”, sustenta que o seu livro é “um apelo às pessoas para que se mobilizem em torno dos valores fundamentais da humanidade”.

Ece Temelkuran fez a sua opção, face a um sistema que se “desmorona” e recorre “aos designados homens fortes para se proteger do colapso”, inclusive nos sistemas democráticos aparentemente mais estáveis, como sucedeu nos Estado Unidos no consulado de Donald Trump ou no Reino Unido de Boris Johnson, como recorda.

“Mas aquilo que possamos saber não faz parte do conhecimento comum. No Reino Unido, nos Estados Unidos, as pessoas não sabem que o fascismo surge com o colapso do capitalismo, pensam que os regimes autoritários apenas podem existir em países socialistas, nos países da ‘cortina de ferro’…”, indica.

Assim, “Unidos” tem também uma missão, um objetivo primordial, reconhecer que este pensamento alternativo não faz parte do conhecimento comum, e tentar divulgá-lo.

“Primeiro, temos de fazer com que se compreenda que o fascismo também está relacionado com o capitalismo. Apenas há poucos anos se começou a usar a palavra fascismo, antes era populismo, autoritarismo. Apenas há dois, três anos, que as pessoas começaram a falar de fascismo. Designar as coisas pelos nomes é importante”, destaca.

Os movimentos de protesto pelas alterações climáticas, contra o racismo e a violência policial, de denúncia das desigualdades, tiveram um impacto importante nos países mais poderosos, assinala, mesmo se tenham esvaziado ou que os Estados ou as organizações internacionais “não façam o que deviam fazer”.

No entanto, Ece Temelkuran frisa que os movimentos de protestos forçaram os Estados a “alterarem o seu discurso, e para não falar de mudanças climáticas ou aquecimento global que passaram a ser incluídos nos seus programas políticos”.

“É um movimento proveniente das gerações mais jovens. Espero e acredito que existe uma tendência e não apenas provocada pela crise climática, mas também devido ao colapso do capitalismo, existe uma generalizada abolição do consenso em relação ao sistema”, salienta.

O afastamento dos jovens em relação ao “consenso” constitui para a escritora turca outro fenómeno do mundo de hoje, e que não se verificava nas décadas de 1980 e 1990, onde quem criticava o capitalismo era uma “minoria”.

“Agora, mesmo as pessoas que não sabem a terminologia da crítica ao capitalismo, sobretudo os jovens, estão a afastar-se do consenso. É um dos problemas do capitalismo, não apenas o falhanço do sistema, mas o facto de não conseguir que as pessoas continuem a acreditar. Observo uma nova tendência entre os mais jovens, em simultâneo contra os líderes autoritários e contra o capitalismo em geral”, sublinha.

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