‘Situações shakespearianas’ desenhadas por João Abel Manta em Almada

‘Situações shakespearianas’ é o nome da mostra com trabalhos a tinta-da-china, “dissecados, de propósito, da gigantesca obra gráfica” de João Abel Manta, que representam cenas de oito tragédias de Shakespeare, “um dos seus heróis maiores”, escreve o comissário da mostra e familiar do artista, José Luís Carneiro de Moura, na ‘folha de sala’ da exposição, acolhida pela Companhia de Teatro de Almada (CTA).

A inauguração da mostra, marcada para as 20:30 de sexta-feira, antecede a apresentação da nova temporada de teatro da CTA, e contará com a presença do comissário e da filha do artista, Isabel Ribeiro Manta, disse à Lusa a CTA.

‘Macbeth’, ‘Hamlet’, ‘Ricardo II’, ‘Henrique V’, ‘Júlio César’, ‘Rei Lear’, ‘Otelo’ e ‘Romeu e Julieta’ são as tragédias de ‘O Bardo’ de Stratford-upon-Avon cujas cenas João Abel Manta retratou.

Um desenho para a cena 2 do IV ato de ‘Macbeth’ e outro da cena 2 do II ato de ‘Romeu e Julieta’ constam da mostra, que tem na capa da apresentação o desenho para a segunda cena do V ato de ‘Otelo’.

“Nesses desenhos a tinta-da-china, de mestria técnica assombrosa, os personagens-figurinos, delicadamente desenhados como joias em miniatura, inscrevem-se em cenários de arquitectura austera, e gritam os dramas que estão a eclodir”, sublinha o comissário.

Eles “constituem uma leitura visual da essência emocional e narrativa de cada uma das peças, e de cada uma das situações escolhidas”, enfatiza José Luís Carneiro de Moura.

O encenador Ricardo Pais, que escreveu o ensaio ‘Noite de Reis’ em 1994, para um álbum de reproduções desta série, é agora citado pela apresentação da mostra: “Estes desenhos propõem o seu próprio espectáculo. O Desenhador é o Encenador… Cada desenho, todos os desenhos, é de um inigualável rigor em que não há lugar para qualquer intrusão lateral, desviante da espessura grave, profunda, do que é dado ver”.

E, “no entanto, há neles uma contida desmesura que, enquanto remete para o Shakespeare original, demonstra com uma intensidade e uma emoção matemática que nenhuma das suas obras teatrais é ou será algum dia arcaica”, acrescentou Ricardo Pais que, em 1998, então diretor artístico do Teatro Nacional S. João (TNSJ), encenou a popular comédia de Shakespeare “Noite de reis ou como lhe queiram chamar”, a partir de uma tradução e prefácio de António M Feijó – e depois editada pelo TNSJ na coleção de textos dramáticos.

Exibidas em ‘João Abel Manta Drawings’, no Institute of Contemporary Arts (Londres 1976), e nas “grandes mostras” sobre a obra gráfica do artista, como as realizadas no Museu Bordalo Pinheiro, em 1992, e em ‘Máquina de Imagens’, em Cascais, em 2021, as imagens reunidas no Teatro Municipal Joaquim Benite foram, no entanto, vistas em público poucas vezes, representando agora esta exposição uma “rara ocasião” para ver as “utopias cenográficas” de um artista a quem Mário Dionísio chamou “um outro Goya, português e inconfundível”.

Oferecidas ao olhar “na montra de um bastião dos que amam o teatro”, José Luís Carneiro de Moura incita o público a demorar-se “nas mil descobertas desta arte tão intencionalmente trabalhada”, como propunha o escritor José Cardoso Pires, para quem João Abel Manta ilustrou, logo na primeira edição de 1972, ainda sob a ditadura, ‘Dinossauro Excelentíssimo’, uma parábola satírica que retrata Salazar, a sua ditadura e o Estado Novo.

Nascido em Lisboa, em 1928, João Abel Manta é filho único dos pintores Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura, tem formação universitária em arquitetura e é considerado, no contexto da história da arte, um dos maiores artistas plásticos portugueses do século XX.

Autor multifacetado, tem obra que vai da arquitetura ao desenho, azulejo, à pintura, ilustração, pintura e cenografia.

Premiada a nível nacional e internacional, a obra de João Abel Manta é sobretudo conhecida pelas caricaturas de intervenção política, durante a ditadura de Salazar, e pelas imagens que fazem parte do imaginário coletivo do 25 de Abril, que incluem os cartazes de apoio ao Movimento das Forças Armadas e de saudação da democracia.

Estudou na Escola de Belas Artes de Lisboa, em 1945, onde comprometeu desde logo o seu desenho às suas convicções políticas de oposicionista à ditadura do Estado Novo e a Salazar: enfileirando no MUD Juvenil, oferece um desenho alusivo ao Natal de 1947, cuja reprodução e venda revertia para o apoio a membros do Movimento de Unidade Democrática (MUD) presos pela polícia política.

O ativismo valeu-lhe a prisão em fevereiro de 1948, com duas semanas passadas em Caxias, e uma ficha nos arquivos da PIDE, a polícia política da ditadura.

Formou-se como arquiteto nas Belas-Artes e teve uma importante atividade no domínio da arquitetura a partir do início da década de 1950, que abandonaria progressivamente em favor das artes plásticas, destacando-se como o maior cartoonista português e um dos melhores ilustradores portugueses das décadas de 1960 e 1970.

Nos anos anteriores e posteriores ao 25 de Abril de 1974, João Abel Manta publicou regularmente, em jornais de grande tiragem, tais como Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Jornal e Jornal de Letras, tendo sido o primeiro diretor de arte deste último.

Desenvolveu também trabalhos críticos relacionados com a situação político-social portuguesa e tem dois álbuns editados: ‘Cartoons, 1969-1975’ (1975) e ‘Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar’, obra lançada originalmente em 1978, pelas Edições O Jornal, que regressou às livrarias em abril do ano passado, numa edição da Tinta-da-China, no âmbito das celebrações do 25 de Abril.

‘Situações shakespearianas’ pode ser vista até 27 de março, Dia Mundial do Teatro, de quinta-feira a sábado, das 19:00 às 21:30, e, ao domingo, das 13:00 às 19:00.

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