The Beths, os neozelandeses que deram nova vida à angústia do indie rock

Sentados em círculo no pequeno camarim, rodeados de fruta, de malas, de algumas garrafas esvaziadas pela adrenalina pós-concerto e de uma garrafa gigante da Super Bock oferecida pela organização, os The Beths confessam a sua sorte no Porto. Num Primavera Sound marcado pela chuva forte nos primeiros dias, os neozelandeses encontraram um bocado de paz e sossego, um sol soalheiro e convidativo e um concerto cheio para apresentar o seu aclamado ‘Expert In A Dying Field’.

“Foi surpreendente a quantidade de pessoas que veio. Estas pessoas terão saído de casa enquanto estava a chover muito, e chegaram à medida que ficou bom tempo. Estavam determinados, com grande espírito”, elogia Elizabeth Stokes (ou Liz), principal protagonista deste amigável grupo de Auckland, com a sua voz delicada a furar o noise rock dos Shellac, que tocam ruidosamente do outro lado da tenda.

Mas se é verdade que houve sorte com a meteorologia, não houve sorte nenhuma quanto ao entusiasmo à sua volta. Aí, há apenas mérito. Ao longe, os The Beths parecem ser a típica banda de indie rock, com a típica energia alternativa e o típico ‘set up’, mas, tal como o som, as palavras do último álbum, escritas por Liz Stokes, soam-nos únicas, diferentes e mais próximas do que muitos trabalhos do mesmo estilo musical. Se o indie rock é protagonizado por uma constante frustração romântica e existencial, ‘Expert In A Dying Field’ acrescenta luz ao rock e canta o próximo capítulo, o seguir em frente e o complexo dilema entre um devastador fim de uma relação e a reconciliação inevitavelmente falhada.

O álbum foi considerado pela Pitchfork, um dos sites mais conceituados pela crítica musical internacional, como um dos 50 melhores álbuns do ano passado (uma lista que incluiu, em primeiro lugar, o ‘Renaissance’ de Beyoncé).

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, logo após o concerto no palco Super Bock do Primavera Sound, Liz explica que “tem sido muito bom ver este álbum chegar a um novo público”, e ver muita gente a conectar-se com as suas letras acaba por ser surpreendente.

“É um bocado assustador, porque o primeiro álbum correu bem para nós, colocou-nos no primeiro patamar que nos permitiu fazer uma digressão internacional, ter pessoas a vir aos espetáculos, começar a criar uma base de fãs internacional. E foi assustador, porque a partir daí continuas a fazer álbuns e simplesmente não sabes se vais lançar um e se as pessoas se vão conectar com ele. E as pessoas conectaram-se com este e chegou a muita gente nova, mais do que esperávamos”, diz a vocalista.

As letras partem da cabeça de Liz, que segue a lei de Mark Twain, que disse que primeiro devemos ter os factos esclarecidos, antes de os distorcermos ao nosso bel-prazer. E são versos como os que são encontrados em ‘A Passing Rain’, que resumem um pouco a força motriz do disco, quando Liz canta, de forma algo animada: “Dizes-me docemente que não me queres de outra maneira / não és um mentiroso, mas não acredito em ti quando estou neste estado”.

“Para mim é difícil ser tipo ‘vou escrever sobre isto’. Tende a ser autobiográfico, mas também não é ser necessariamente não-ficção; no final do dia, a música tem de ser boa, e se a história não for boa, então tens de mudar alguma coisa. Mas todas começam de um lugar emocional”, explica, sobre o seu processo criativo.

Digressão “incessante” e a expectativa do público de festival 

A pandemia atingiu a Nova Zelândia de forma muito diferente do resto do mundo, com o país a isolar-se com sucesso nas suas ilhas e a recorrer aos confinamentos apenas durante poucos meses em 2021. Por exemplo, muitas atividades retomaram rapidamente a normalidade, como as competições de rugby – algo que falamos com Jonathan Pearce, o guitarrista da banda e um frustrado adepto dos sempre promissores, mas nunca campeões, Blues de Auckland (talvez não seja o tópico mais relevante da entrevista, mas aproveitamos na mesma a oportunidade para promover a presença portuguesa no próximo mundial da modalidade, em França).

Os The Beths abriram o palco Super Bock na edição deste ano do Primavera Sound© Hélio Carvalho/Notícias ao Minuto  

Infelizmente para os The Beths, a pandemia também os obrigou a ficar dentro de fronteiras, impedindo-os de apresentar o segundo álbum, ‘Jump Rope Gazers’, lançado em 2020.

A banda confessa que, como tal, o ritmo da digressão que arrancou em 2022 tem sido “incessante”, com concertos um pouco por toda a Europa, pelo Reino Unido e pela América do Norte, com passagens pelos concertos Tiny Desk e pela KEXP, além de muitos outros programas. “É um bocado estranho porque lançamos um álbum em 2020, e não fizemos tour durante dois anos; quando voltamos a fazer uma tour em 2022, havia muitos espetáculos adiados, e depois lançamos um álbum no final do ano, e agora estamos em tour com isso. Sentimos que temos estado sempre na estrada”, descreve a vocalista.

Jonathan reitera com entusiasmo ainda que a banda faz “concertos mais pequenos na Europa, mas é bom voltar aos festivais porque fizemos alguns sítios pela primeira vez, como o Norte da Alemanha e Portugal”. E afirma também que o grupo gosta “muito dessa experiência de tentar tocar para um grupo de pessoas como se fosse o seu primeiro concerto de The Beths, temos mesmo de os convencer e isso é divertido”, enquanto Benjamin Sinclair comenta que “é muito entusiasmante quando vamos a um território onde não fazemos a mínima ideia de como é o público”.

No Porto, a situação foi semelhante, com muita gente a vibrar com o concerto da banda, sem a conhecer, aproveitando a pausa na chuva e o sol quente para ouvir bom indie rock, uns de pé, outros sentados ao longe na relva. “Estávamos a fazer o teste de som e estava a chover muito, muita chuva lateral, portanto estávamos um bocado preocupados. As pessoas vieram diretamente para o nosso palco, toda a gente diretamente para os Beths”, reafirmam Liz e Jonathan, que considerou o público português “incrível”.

A logística de um festival pode ser, contudo, bastante apressada e stressante para uma banda a apresentar-se a um novo público. Jonathan gosta de ter “o maior palco possível, nenhum palco é grande o suficiente!”, sentindo que a banda consegue o seu próprio concerto, “em vez de sermos empurrados para palco e nos dizerem ‘Go!’”. No Primavera Sound, o processo foi mais calmo, já que foram os primeiros a atuar no palco Super Bock (o espaço mais intimista do festival, cercado por árvores a toda à volta), atuando antes de outro conceituado grupo de indie rock, os Alvvays.

Elizabeth Stokes sublinha que “estes festivais têm sido agradáveis, porque não são a experiência clássica de festival de ‘tens 15 minutos para mudar todo o equipamento e entrar em palco’, que é muito stressante e difícil”.

‘Watching The Credits’ e a “amigável” biodiversidade neozelandesa

Poucos minutos depois de o baterista, Tristan Deck, salientar que o festival é “muito organizado” e de Liz dizer que foram “bem cuidados” no Porto, o final da entrevista é subitamente interrompido por um presente por parte da organização do festival, que entrega uma garrafa de vários litros com o nome da banda, recebida por aplausos, admiração e a constatação de que a garrafa é absurdamente pesada.

Elizabeth Stokes e o guitarrista, Jonathan Pearce, conheceram-se na escola e o grupo nasceu quando todos estavam no ensino superior© Hélio Carvalho/Notícias ao Minuto  

A intervenção por parte da promoção da Super Bock surge quando se fala do último single da banda, ‘Watching The Credits’, lançado em março. Desde então, o single teve dezenas de milhares de visualizações no YouTube. Aquando da divulgação da música, foi dito que a letra se baseava no hábito de Liz Stokes aprender tudo o que há para aprender sobre filmes, sem os ver.

A conversa cai brevemente, com todos a reagirem incrédulos a Elizabeth que, questionada sobre qual o melhor filme que nunca viu, responde ‘Parasitas’, de Bong Joon-ho. “Eu vi tantos vídeos sobre ele, li sobre ele, as sinopses, sei exatamente o que acontece mas ainda não vi o filme em si. Ao início tinha medo que fosse de terror, e sei que é um bocadinho, mas vou ver, já sei que não é assim tão assustador”, diz, tentando tranquilizar todos, especialmente Ben.

Previsivelmente, Tristan aponta: “Nós só vemos o The Rock e ‘Senhor dos Anéis’” – quase como se fosse obrigatório um neozelandês estar a par da saga.

O single é uma analogia entre as dificuldades de produzir um filme e o crescimento pessoal, com Liz a cantar que passa “a noite a fazer cortes na edição / vendo os créditos para encontrar direção na minha existência”.

Na Invicta faltou, ainda, um hábito que a banda tem (ou tinha), o de perguntar ao público um facto interessante, um ‘fun fact’, sobre o local onde estavam a tocar. Como não houve perguntas ao público, houve resposta sobre a Nova Zelândia.

“Temos o maior lago numa cratera de um vulcão no mundo…”, começa Liz. Jonathan chega-se à frente. “Acho que tenho um melhor. Na Nova Zelândia, todos os animais nativos são aves. Não temos nenhum mamífero nativo. Só há aves pequenas que não voam e vivem no chão. Não há ratos, não há texugos, só há aves muito grandes, são patéticos mas nós adoramo-los”.

Então, a Nova Zelândia é como a Austrália, mas sem os animais mortíferos? Liz acha que “é um bocado diferente”; Jonathan concorda, “é um pouco como a Austrália, mas mais amigável”; Benjamin esclarece, entre gargalhadas: “em vez das seis cobras mais perigosas do mundo, tens seis aves muito amigáveis não-voadoras”.

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