Tradução portuguesa do ‘Diário’ de Witold Gombrowicz chega em novembro

 

Esta é uma das novidades que a editora tem previstas lançar até final do ano, entre as quais se inclui também a publicação de um conjunto de conversas, até hoje inéditas, entre duas estudantes universitárias e artistas surrealistas portugueses.

Para lá de ser considerado a sua ‘magnum opus’, “Diário” é a obra mais pessoal, mas também a mais universal de Witold Gombrowicz, cujo primeiro volume é agora publicado pela primeira vez em Portugal (o segundo chega em 2022), em tradução direta do checo.

Rita Gombrowicz, viúva e responsável legal pela publicação póstuma dos escritos do escritor, descreve “Diário” como uma “autobiografia em movimento, ensaio e obra de arte”, um livro “incomparavelmente rico”, que “ocupa um lugar único na literatura contemporânea”.

Neste primeiro volume é relatada a chegada de Witold Gombrowicz à Argentina, a bordo do transatlântico Chobry, em 1939, em vésperas de rebentar a Segunda Guerra Mundial, que o obrigou a um exílio de mais de duas décadas.

Com parcos recursos e isolado, foi neste país — tornado numa segunda pátria – que escreveu o grosso da sua obra, nomeadamente “Transatlântico”, “Pornografia” e “Cosmos”, além deste “Diário”.

Proibido pelo regime comunista, o livro só foi publicado na Polónia em 1986, dezassete anos após a morte do escritor.

As novidades da Antígona, porém, começam já no final deste mês com a publicação de “Escada líquida. Conversas inéditas com surrealistas portugueses”, de Eduarda Feio e Maria Aurélia Marcelino, prefaciado pelo académico António Cândido Franco, autor da biografia de Mário Cesariny.

Em 1978, duas alunas da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL) entrevistaram Mário-Henrique Leiria, na sua “Casa de Usher”, em Carcavelos, naquela que foi uma das poucas entrevistas dadas pelo autor.

Henrique Risques Pereira foi entrevistado no Grémio Literário de Lisboa, e Cruzeiro Seixas, num banco de jardim da ESBAL.

Até hoje inéditas, estas conversas “são um testemunho vivo e espontâneo, sem meias-medidas nem papas na língua, sobre o percurso de vários surrealistas e sobre ‘a máquina de lavar o cérebro’ que foi o surrealismo em Portugal”, segundo a editora.

Na mesma altura, chega também às livrarias “Pesadelo em ar condicionado” (1945), de Henry Miller, um relato do regresso do autor aos Estados Unidos, para redescobrir as raízes e a alma do seu país, após dez anos na Europa.

O que o escritor encontra nesse regresso são “indústrias hipócritas e cidades aberrantes, mecas de negócios, ganâncias e bugigangas, mortos-vivos enterrados em crédito e preconceitos, gente de cifrões nos olhos divorciada da terra que pisa e explora”, erigidos sobre as ruínas do sonho americano.

“Numa prosa desconcertantemente clarividente, da janela aberta do seu automóvel, Henry Miller faz o implacável retrato de um país que ainda hoje reconhecemos: um país de grandes esperanças, promessas traídas e insanáveis contradições”, destaca a editora.

Em outubro chega “As transformações do homem”, de Lewis Mumford, obra de 1956 e – nas palavras da editora – “premonitória sobre a evolução do homem exposto à tecnologia e ao progresso sem consciência, analisando a desumanização e os seus perigos: a regressão histórica da humanidade ao sabor dos seus instrumentos e a crescente irracionalidade da nossa espécie proporcional à galopante racionalização de métodos de produção”.

Outra novidade deste mês é “Comboios rigorosamente vigiados”, de Bohumil Hrabal, o segundo livro deste autor checo que a Antígona publica, depois de “Uma Solidão Demasiado Ruidosa”.

Em tradução direta do checo, este é um clássico da literatura do pós-guerra, datado de 1965, considerado “uma pequena obra-prima de humor, humanidade e heroísmo”.

Adaptada ao cinema por Jiri Menzel em 1968 (vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro), a história acompanha a vida numa pacata estação ferroviária da Checoslováquia ocupada pelos nazis, nos últimos dias da guerra na Europa, onde trabalha Milos Hrma, um jovem aprendiz com um “hilariante historial de família”, no qual se destaca um avô que quis deter os tanques alemães pelo poder da hipnose.

Emma Goldman (1869-1940), figura maior do anarquismo, precoce defensora da igualdade e da independência da mulher, da liberdade de pensamento e de expressão, do sindicalismo e da emancipação sexual, chega às livrarias igualmente em outubro, com a sua autobiografia, “Viver a minha vida”.

Neste livro, conta como se exilou aos 16 anos nos Estados Unidos e rapidamente mergulhou no seu mar político e intelectual, para depois ser expulsa do país, em 1919, e regressar à Rússia, onde prosseguiu a sua luta pela emancipação.

Ainda no mesmo mês, a Antígona lança “Do assassínio como uma das belas-artes” (1827), de Thomas de Quincey, um clássico do humor negro e da provocação, sobre a arte de assassinar, à luz de considerandos estéticos, por se tratar de um exercício, segundo o autor, tão digno de ser apreciado como uma bela obra artística.

A fechar a programação, além de “Diário”, a Antígona publica em novembro “Nós, refugiados / Para lá dos direitos do Homem”, de Hannah Arendt e de Giorgio Agamben, e “Malina”, de Ingeborg Bachmann.

Em “Nós, Refugiados”, escrito em 1943, durante o exílio nos EUA, Hannah Arendt aborda a crise de identidade do povo judeu, problematizando a questão da assimilação e a condição do “refugiado”.

Cinquenta anos depois, Giorgio Agamben, em “Para lá dos direitos do homem”, dialogava com o texto de Hannah Arendt, tomando por ponto de partida um outro conjunto de “figuras de fronteira”, os palestinianos em Israel.

“Neste volume recolhe-se a imagem desse diálogo transcontinental e transtemporal, ao mesmo tempo atual e pertinente à luz do estado do mundo”, destaca a editora.

“Malina”, um clássico feminista moderno, surge no quinquagésimo aniversário da sua publicação original (1971), como uma das grandes apostas editoriais da Antígona na ‘rentrée’.

Adaptado ao cinema por Werner Schroeter em 1991, com guião de Elfriede Jelinek, e Isabelle Hupert como protagonista, “Malina” trata de um triângulo amoroso numa Viena decadente.

É uma viagem aos limites da linguagem e da loucura de uma mulher, mas, sobretudo, um retrato existencial lúcido e poderoso.

“Malina” é o único romance de Ingeborg Bachmann, pensado como primeiro volume de uma trilogia que ficou interrompida pela morte da autora.

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