Vida ficcionada de Dulce Maria Cardoso em ‘Autobiografia não autorizada’

 

Editada pela Tinta-da-China, ‘Autobiografia não autorizada’ reúne as 55 crónicas que a autora de ‘Eliete’ escreveu para a revista Visão e chega às livrarias na quarta-feira.

Um autor publicar uma autobiografia não autorizada é quase uma impossibilidade, porque “uma autobiografia, à partida, diz a verdade, relata o que se passou”, mas porque “há muito de inventado nas crónicas, não é um diário, não é uma autobiografia que eu autorizasse”, contou Dulce Maria Cardoso, em entrevista à Lusa, assumindo que o título é também “uma provocação”.

“O que eu conto lá é a partir da verdade, não quer dizer que seja a verdade. Pode ser ficcionado posso nem partir de factos reais e colocar sentimentos verdadeiros, é a minha vida, eu tornei-me personagem, é a minha vida ficcionada, até quanto mais não seja pela memoria que é sempre uma mistura de ficção e de imaginação”.

São crónicas pessoais e íntimas, sobre temas tão diversos como a infância, caminhadas medidas com pedómetro, a experiência de regressar a Portugal após o 25 de Abril como retornada, a vida doméstica, a avaria de uma máquina de lavar roupa, ou os passeios com o cão.

Os textos têm “muito de real”, mas os nomes de terceiros são por vezes alterados, porque essas pessoas têm o direito à reserva e à privacidade, já que “não escolheram fazer parte disto”.

Do mesmo modo, quando a escritora quer falar de um sentimento de perda, mas não quer contar exatamente a perda, inventa uma outra pessoa que possa falar, explicou.

“Faço estes pequenos jogos, que não posso dizer que seja mentira, que é tudo inventado -, que não é, há muita coisa verdadeira -, da mesma maneira, quando se está a escrever ficção há sempre verdade do autor, e o jogo é descobrir o que é que daquilo é verdade na vida do autor; aqui é ao contrario, estou a escrever a verdade, mas há sempre mentira e o jogo é descobrir o que é que é mentira”.

Dulce Maria Cardoso reconhece que apesar dos jogos e dos contornos e das ocultações, há sempre “uma intimidade exposta”, o que faz parte do pacto de escrever crónicas neste registo.

“Tendo escolhido eu não me esconder nem esconder a minha família nuclear, claro que há sempre um pezinho na intimidade, mas até agora nunca com um ataque à minha intimidade, ou de contar a vidinha, aquela espécie de quotidiano familiar com tricas, isso não me agradaria nada”.

Os familiares aparecem em muitas crónicas do seu passado, são personagens secundárias, e embora a escritora tenha conseguido “protegê-los”, destaca que a sua família, apesar de conservadora, é pouco convencional, no sentido de que sempre foi muito aberta, não só a receber pessoas em casa – até mesmo acolhendo no Natal quem não tivesse onde o passar com companhia -, como a falar de todos os assuntos, sem mentiras, sem segredos, sem tabus.

“Como cresci nesta família, que neste aspeto é tudo muito tranquilo, é natural eu falar de mim e deles, nem sequer me questiono sobre isso. Para alguém de fora que se possa questionar, e várias pessoas já me fizeram essa pergunta, para nós não é um assunto”, o que não significa que as “vá magoar porque literariamente é interessante, não me faz sentido”.

Quanto ao seu processo criativo e aos vários estilos géneros que trabalha — romance, conto e crónica – Dulce Maria Cardoso não faz hierarquia e rejeita a ideia comum de que “o romance é astro rei e depois vem tudo por aí abaixo e no fim está a crónica” porque é publicada em suportes mais efémeros.

Cada texto tem a sua função e o empenho e dedicação que põe em cada são os mesmos, mas se a questão for a preferência, aí a conversa já é um bocado diferente.

“Acho que sou mais uma escritora de ficções longas, por isso gosto mais do romance, no sentido de poder viver muito tempo como as personagens e de estar esquecida naquele universo paralelo que acabo por criar. Se me disser que não tenho solicitação externa nenhuma, para onde vou? Para o romance. Tendo solicitação, escrevo com tanto prazer, ou dor – consoante corra bem ou mal” -, tanto num género como noutro.

A autora referia-se ao facto de atualmente, além da coluna que assina na Visão (com o mesmo título dado ao livro), ser comentadora na estação televisiva SIC, no programa “Original é a Cultura”, e ter participações pontuais em iniciativas de âmbito cultural e literário, que lhe deixam pouco tempo livre para se dedicar ao romance, nomeadamente ao segundo volume de “Eliete”, prometido desde 2018.

“Estou a ganhar força e tentar uma logística que me permita regressar ao romance, que por ser um conto muito longo exige de mim uma entrega e concentração e uma capacidade que não fui tendo neste tempo, mas que espero vir a ter em breve”.

Sobre ‘Eliete’, garante que “não está esquecido” e que só precisa “ganhar a força para voltar a ele”: “Tenho cerca de mil páginas escritas, mas como tenho aquele método terrível de apagar e escrever de memória, exige-me uma tal entrega e força que neste último ano e meio não tenho tido, portanto estou à espera de conseguir reunir essa capacidade novamente para voltar, mas não está de maneira nenhuma esquecido”.

Este seu método de trabalho nasceu com o segundo romance, ‘Os meus sentimentos’, quando um vírus apagou todo o romance do computador. Nessa altura, Dulce Maria Cardoso fechou-se e escreveu tudo “numa corrida contra o tempo”, para se esquecer o menos possível, e quando o releu, achou que estava muito melhor do que o romance inicial.

Desde então, faz o mesmo em todos os seus textos de ficção longa, mas é uma tarefa que “exige uma imersão completa, não é coisa que escreva uma hora e depois [volte] noutra hora para continuar”.

“Tenho que estar dento do texto, para ele estar quase todo na minha cabeça e para eu poder fazer isso”, o que “exige uma tal entrega e disponibilidade” que não tem existido.

O livro ‘Autobiografia não autorizada’ publica as crónicas na ordem cronológica em que foram saindo na revista, e Dulce Maria Cardoso sabe que estão lá todas, porque a editora lhe disse, já que ela nunca relê o que escreve depois de publicado.

Leia Também: Leipzig prepara próxima edição da feira do livro mais pequena

Deixe um comentário