‘A última gravação de Krapp’ estreia em abril no Teatro Carlos Alberto

Encenada por Nuno Carinhas, que volta ao TCA, do universo do Teatro Nacional São João, onde foi diretor artístico durante 10 anos, o monodrama que este descreve como “provavelmente a peça mais nostálgica, melancólica e lírica de Samuel Beckett” tem em João Cardoso o único ator em palco.

À Lusa, o encenador apontou a “memória” como “a mensagem atual” da peça escrita em 1958: “Como mensagem atual mantém-se a da memória, que é um problema de nós todos, em todas as gerações. Hoje em dia parece que já não a temos porque existe uma coisa chamada Google, mas a nossa própria memória continua na ordem do dia e quanto mais vivermos mais vamos sentir isso, porque o nosso cérebro não é eterno”.

Concordando que o tema da solidão é também atual, Nuno Carinhas assinalou, contudo, que na obra de Beckett “não se sabe se há uma solidão desejada ou não”, concluindo o raciocínio com a afirmação de que Krapp “é, certamente, um misantropo”.

Numa peça onde a “primeira fala acontece aos 11 minutos”, Nuno Carinhas descreveu que a sua assinatura no espetáculo “está na cenografia, em gestos perdidos no meio do texto”, acrescentando-lhe, depois, no diálogo com a Lusa, o pormenor do bâton usado enquanto Krapp recorda momentos passados com Evi, com quem teve um caso amoroso.

“[O significado do bâton] De alguma maneira será um objeto que ele [o protagonista] guardou deste amor longínquo, mas também pode ser visto pelo lado de que todos os palhaços pintam os lábios e ele é descrito logo nas primeiras didascálias como bastante próximo da imagem do palhaço, com umas botas grandes que aqui evitámos ter. Mesmo os acidentes com as bananas remetem para aí”, explicou.

Resumindo-as como “coisas que vão sendo acrescentadas” depois de ter cumprido a partitura, rotulou-o como “o grande desafio quando se faz [Samuel] Beckett”, ou seja, “voltar a ter uma disciplina férrea”, em que se aprende que “não faz mal” ser-se regido pelo mestre, de se voltar a ele e ver o que se “pode acrescentar”.

A peça tem a duração de uma hora e decorre num cenário entre uma secretária com um gravador de fita magnética, caixas de bobines e um armário onde tem um dicionário e o microfone que usa para registar as suas memórias.

A ‘Última Gravação de Krapp’ é uma coprodução do Teatro Nacional São João com o Centro Cultural de Belém.

O monólogo está em cena no Teatro Carlos Alberto entre os dias 13 e 23 de abril, às quartas-feiras, quintas-feiras e sábados, às 19:00, sextas-feiras, às 21:00, e domingos, às 16:00. O preço dos bilhetes oscila entre os cinco e 10 euros.

Nuno Carinhas revelou à Lusa que após, a temporada deste espetáculo, irá “parar um bocadinho” e que voltará no último trimestre do ano, ao Teatro Joaquim Benite, em Almada, com ‘O soldado Schweik’, de Bertholt Brecht, uma peça inspirada na obra satírica do romancista checo Jaroslav Hasek, ‘O bom soldado Schweik’, cujo herói se tornou num símbolo do absurdo da guerra.

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