‘A Última Solidão’ chega às livrarias para por o país a falar de ‘velhos’

Começa logo por explicar que não gosta da palavra ‘idoso’, que considera “uma palavra com uma condescendência brutal”, e logo aí fica claro que a entrevista à agência Lusa será para falar de velhos, dos velhos que chama de seus, através das “histórias de amor e mágoa” destas pessoas que conheceu pelos vários lares onde trabalhou desde que se formou enfermeira.

O livro já está à venda nas principais livrarias nacionais e o título não podia ser mais premonitório: “A Última Solidão”.

“A velhice está sozinha. Há lares onde a gente entra que parecem a antecâmara da morte. Há uma sala enorme onde estão 30 ou 40 utentes com a televisão aos gritos e de onde só se mexem quando vão para a sala de refeições”, diz Carmen Garcia.

Todas as pessoas das 12 histórias contidas no livro já morreram e nenhum nome é real, mas todas são demonstrativas do estado a que chegou o envelhecimento num dos países mais envelhecidos do mundo, e que Carmen Garcia espera que deem “às pessoas uma noção melhor do que é ser velho e do que é que se passa em lares”.

A “história de maior solidão” que conta no livro leva o nome de Custódio, “um homem que foi indigente a vida toda”, que fugiu de casa aos nove anos, foi violado durante anos por um padre, e acabou cego num lar, convencido de que a justificação para a cegueira estava no facto de não haver ninguém que ele precisasse de ver.

“Este homem nasce e morre sozinho e é uma história de uma solidão absoluta e eu muitas vezes chamo a atenção para isto, para a doença mental, para a necessidade de dar atenção à doença mental, para os lares terem psicólogos porque a doença mental está lá”, afirma Carmen Garcia.

Estas histórias servem também para denunciar casos de violência doméstica, com casais em que “a mulher é absolutamente subjugada e continua a ser vítima de violência física”, mas também de namoros e casamentos que acontecem entre utentes dos lares.

“Há tantas coisas que se passam nos lares e as pessoas não sabem”, desabafa, para logo de seguida explicar que a razão pela qual entendeu que fazia sentido escrever o livro é que “é preciso que a gente fale de velhos”.

“Eu queria muito trazer os velhos, a velhice, os lares e estas coisas todas para a ordem do dia antes que a bolha nos rebente em cima”, justifica.

A “bolha” de que Carmen Garcia fala, e que, segundo ela, o país tem vindo a “empurrar com a barriga”, diz respeito ao rápido envelhecimento da população em Portugal, que pode atingir o rácio de 317 velhos por cada 100 jovens em 2080 -, ao mesmo tempo que faltam as repostas necessárias para estas pessoas.

Respostas para desafios como a demência, contada, por exemplo, através da história de Maria do Rosário, que recolheu à cama depois da morte do filho mais novo, com dez anos, e onde permaneceu 39 anos, indo para um lar cinco anos depois, quando “o Pedro bisneto e o Pedro filho eram uma só e a mesma pessoa”. Carmen Garcia considera Maria do Rosário a protagonista da “história mais incrível e mais triste” que vivenciou enquanto enfermeira.

Outro desafio de que pouco se fala, aponta, tem a ver com as relações abusivas que, como se passam entre marido e mulher, acabam ignoradas durante muito tempo, como no caso de Emília, que casou com outro utente do lar, que “todas as noites ia para cima dela e esfrega[va]-se, para cima e para baixo” mesmo contra a vontade da mulher.

Carmen Garcia assume a dificuldade que teve em escolher as histórias que agora pôs em livro, mas afirma que quis que com elas as pessoas ficassem a conhecer e a saber o que se passa dentro dos lares e com quem lá vive “porque há tanta coisa que precisa ser mudada”.

A apresentação pública do livro acontece em 28 de outubro, Dia Internacional dos Idosos.

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