‘Abandonados’ sobre invasão japonesa de Timor-Leste estreia-se em Lisboa

O filme e a série filmada, dirigidos por Francisco Manso, têm por referência o livro “Timor na II Guerra Mundial – Diário do Tenente Pires” (2007), do historiador António Monteiro Cardoso (1950-2016), e tem como fio condutor a vida do oficial português Manuel Pires, então administrador de Baucau, que tentou retirar o maior número possível de timorenses, portugueses e australianos do território, face à entrada das forças japonesas.

A obra retrata “uma história esquecida, de coragem, de sacrifício sobre-humano, que envolveu uma aliança inédita entre timorenses, australianos e portugueses, que souberam ultrapassar as suas diferenças culturais, unindo-se contra um inimigo comum”, refere a apresentação da obra.

“São factos reais que retratam uma faceta muito pouco conhecida. O Governo português de Salazar abandonou completamente estas pessoas, os portugueses que aqui estavam e os timorenses, e isso teve consequências trágicas: estima-se mais de 50 mil timorenses mortos”, recordou Francisco Manso à agência Lusa, quando da estreia do filme, em Díli, em novembro.

Estima-se que entre 50.000 e 70.000 pessoas tenham morrido diretamente devido à guerra e outras devido à fome, às doenças e aos trabalhos forçados a que foram obrigados pelas forças ocupantes.

O filme procura retratar o que o realizador diz ter sido uma “tragédia de proporções incalculáveis”, incluindo “zonas de proteção japonesa criadas em Liquiçá e Maubara, que eram campos de concentração terríveis onde não havia o que comer, onde morreram imensas pessoas em condições subumanas”.

“A falta de proteção dos civis apanhados em conflitos armados é o elemento central” da obra, “uma situação que se repete em várias zonas do mundo, com desrespeito total pelos direitos humanos”.

A diplomata Ana Gomes, que esteve na estreia do filme na capital timorense, recordou então à agência Lusa que a ditadura de Salazar “abandonou os timorenses e os portugueses, numa suposta posição de neutralidade”.

Ana Gomes recordou o tenente Pires e deportados da ditadura, como Cal Brandão, que montaram resistência à ocupação. Salientou ainda a ligação pessoal ao filme, pois o guião foi escrito pelo. seu marido, António Monteiro Cardoso, e o diário manuscrito do tenente Pires foi-lhe dado por uma filha do militar.

A produção de Francisco Manso foi rodada entre março e maio de 2022, em vários locais das ilhas da Madeira e Porto Santo.

“Devido aos elevadíssimos custos que seria filmar a série em Timor-Leste, e dada a situação da pandemia, optou-se for filmar no arquipélago da Madeira, visto ter altas montanhas, vales profundos e uma vegetação exuberante semelhante às zonas montanhosas de Timor”, justificou então a produtora.

O ator Marco Delgado encarna o papel do tenente Manuel Pires, e o elenco conta com mais de 70 atores, entre os quais Maya Booth, António Pedro Cerdeira, Soraia Tavares, Elmano Sancho, Luís Esparteiro, Virgílio Castelo, Joaquim Nicolau, Vítor Norte, além dos brasileiros José de Abreu e Chico Diaz, e ainda atores e figurantes timorenses, japoneses e chineses.

Além da estreia da versão para cinema na capital de Timor-Leste, e da exibição recente no Batalha, Porto, a versão televisiva, de sete episódios, foi apresentada pela RTP a partir de dezembro e disponibilizada na plataforma RTP Play.

Francisco Manso é autor de várias produções para cinema e televisão, como “O testamento do senhor Nepomuceno” (1997), “Assalto ao Santa Maria” (2010), “O Cônsul de Bordéus” (2011) e “O nosso cônsul em Havana” (2019).

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