‘Arena’ é um jogo teatral sem palavras que se estreia na Garagem do Chile

‘Arena’ é um espetáculo sem palavras. Vive de jogos teatrais, situações, personagens e cenas que se inspiram nas músicas que vão sendo ouvidas, disse à Lusa um dos diretores da companhia Outro, Sílvio Vieira, criador do espetáculo, propondo uma reflexão sobre o que significa estar em assembleia, tendo em conta o espaço e o público, entre outros elementos.

Apesar de também terem trabalhado textos clássicos como ‘Ato sem palavras’, de Samuel Beckett, e ‘Na solidão dos campos de algodão’, de Bernard-Marie Koltès, “a peça não inclui qualquer cena do texto de Beckett, ainda que inclua uma de Bernard-Marie Koltès”.

“O espetáculo construiu-se numa espécie de manta de retalhos que está unida por um sentido, que não é necessariamente narrativo mas que liga estas coisas através da manipulação que os atores fazem dos objetos”, explicou Sílvio Vieira.

Numa antiga oficina de automóveis, alugada, limpa e preparada pela Outro para colher a peça, ‘Arena’ tem uma personagem chamada Jan, que é interpretada por seis atores juntos, como se de uma massa se tratasse.

A Jan acrescerá depois um astronauta que, vindo de outra dimensão, constitui um desconhecido, que introduz o elemento estranho, como uma virose no sistema de Jan, o que faz com que as seis personagens que o compõem se desagreguem e emancipem desta figura coletiva.

‘Arena’ é por isso também um espetáculo que reflete sobre o desconhecido e sobre o outro, acrescentou Sílvio Vieira.

Um espetáculo de teatro sem palavra, que vive do jogo dos atores uns com os outros e com os objetos, revisita o vocábulo inglês ‘play’, enquanto fundamento do ato teatral, frisou.

Mas ‘Arena’ é também uma proposta de “reflexão sobre o que significa estar em assembleia, colocando para isso quatro peças no tabuleiro: o espaço, o público, um alienígena e Jan”, observou.

O espetáculo inspirou-se em três artes: a música, o cinema e o ‘foley’, ou sonoplastia, que consiste na reprodução de efeitos sonoros complementares de um filme, vídeo ou de outros meios audiovisuais na pós-produção para melhorar a qualidade do áudio.

Para a criação de ‘Arena’, a companhia começou por convocar o que destas artes “fosse traduzível para o ofício do encenador e do ator em carne viva”.

Na música, procuraram encontrar “sequências narrativas”, havendo cenas “neste espetáculo [que] surgiram com esta premissa”.

Na área do cinema, mestres do mudo “como Charlie Chaplin, Buster Keaton ou Harold Lloyd inspiraram em nós uma linguagem teatral que se afasta por completo da palavra e se enraíza na fisicalidade do intérprete, na manutenção do mistério e na exploração dos objetos”.

Quanto à sonoplastia, numa presença que se quis discreta, “consolida uma das premissas principais do trabalho: reinventar o objeto do ponto de vista formal e funcional através do engenho na sua manipulação”.

‘Arena’ surge assim de “uma necessidade premente de silêncio”, perante o ruído da atualidade.

“O ruído alastrado a todos os domínios da vida encontra do outro lado um pedido exasperado por silêncio. Julgo que a arte tem vindo a denunciar esta saturação, e ‘Arena’ fará parte dessa voz para quem queira vê-la assim”, lê-se na apresentação do espetáculo.

“Se o belo está além do bem e do mal, a beleza de um espetáculo mudo estará menos no dizer político enquanto tema ou reação (geralmente pessimista), mas sobretudo no elogio ao ato teatral como um manifesto imanente de conjunto, revelador de humanidade, e que coloca em evidência as relações entre as pessoas subtraídas ao estrépito das palavras e das máquinas”.

Com direção de Sílvio Vieira, ‘Arena’ tem interpretação de Anabela Ribeiro, André Cabral, Catarina Rabaça, Inês Realista, Miguel Galamba, Miguel Ponte e Pedro Peças.

A cenografia e os figurinos são de Ângela Rocha, o desenho de luz de Manuel Abrantes e a operação de luz de Janaina Gonçalves.

A peça fica em cena até 19 de novembro, com espetáculos de quarta-feira a sábado, às 21:00, e, aos domingos, às 19:00.

A associação Outro nasceu em novembro de 2017.

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