Banda desenhada é uma "excelente ferramenta de educação", diz Joana Mosi

Joana Mosi tem 28 anos, é autora de várias obras de banda desenhada, mas “O Mangusto”, que sai agora pela editora A Seita, é o primeiro romance gráfico de grande fôlego, com quase 200 páginas.

A par da banda desenhada, Joana Mosi é formadora desde os 21 anos, dá aulas de desenho e BD, colaborou com o Plano Nacional de Leitura e com o projeto europeu Comics for Education, e por isso está convicta do potencial desta arte narrativa na sala de aula.

“Conheci muitos formadores e professores fantásticos, as coisas estão muito diferentes, mas ainda há muita resistência da parte de professores, pais e adultos em incluir BD e álbuns ilustrados nas aulas e na educação”, afirmou, em entrevista à agência Lusa.

Joana Mosi recordou que o interesse pela educação surgiu no trabalho em prol da literatura através do Plano Nacional de Leitura.

“Acredito que a BD é uma excelente ferramenta para muitas coisas, mas para a educação também. […] Ler imagens é como se não contasse [para a educação]. É muito fácil acreditar que os miúdos querem ler BD por preguiça. Ao início podem querer, mas é nosso dever tentar providenciar-lhes aquilo que não tivemos [na escola]”, justificou.

A produção de ‘O Mangusto’ aconteceu com o apoio de uma bolsa de criação literária da Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas e de uma residência artística na Dinamarca.

Mangusto é um pequeno animal carnívoro cujo nome mais comum é saca-rabos e abunda em zonas rurais, como as da Ericeira (concelho de Mafra), onde Joana Mosi vive desde a adolescência.

O saca-rabos é um elemento transversal na narrativa, o elemento que perturba a vida de Júlia, a personagem principal, uma mulher que fica obcecada e angustiada, porque teima que um mangusto lhe está a destruir a pequena horta.

Segundo Joana Mosi, esta mulher e o mangusto foram as ferramentas para explorar um tema que lhe interessava e que, não sendo autobiográfico, tem um fundo pessoal.

“Neste caso é um livro sobre família, sobre luto, é sobre procurar o nosso lugar. E é um tema com o qual qualquer pessoa se consegue identificar. São questões bastante humanas e fazem parte da nossa sociedade”, explicou.

Visualmente, ‘O Mangusto’ já nada tem a ver com os álbuns ‘Nem todos os catos têm picos’ (2017) e ‘O outro lado de Z’, com argumento de Nuno Duarte, só para citar dois dos mais conhecidos da autora e que têm um traço mais expressivo e orgânico.

“O Mangusto” foi desenhado totalmente em digital, a traço preto, sempre com a mesma espessura, o que faz com que “o desenho pareça bastante estéril, equilibrado, bastante distante”.

“É muito pouco expressivo em certas alturas e foi intencional. É a ideia e a sensação que quero passar com a história, de desconexão, em que as pessoas não conseguem chegar umas às outras”, esclareceu.

‘O Mangusto’ sai em Portugal pouco depois de já ter sido editado em francês no Canadá, pela Éditions Pow Pow, pela circunstância de Joana Mosi ter apresentado o seu portefólio num festival de BD em Toronto.

“Mostrei o livro e a editora gostou logo, assinámos contrato e saiu lá primeiro”, resumiu.

O livro sairá em setembro na Europa, nos territórios onde se fale francês e para 2024 está prevista a edição em inglês.

Para Joana Mosi, a banda desenhada, à qual se decidiu dedicar na adolescência, é a materialização daquilo que gosta de fazer, mas não é um caminho estanque: “Gosto de imagem, de palavras, de projetos que envolve comunicação. […] Vou começar em breve a trabalhar também com videojogos. Vejo a vida por fases e estou a experimentar coisas novas”.

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