Benjamin Moser e Lira Neto debatem as fronteiras da biografia

Para o académico norte-americano Benjamin Moser, autor das biografias de Clarice Lispector (Relógio d’Água) e de Susan Sontag (Objetiva), com que venceu o Prémio Pulitzer, escrever uma biografia é colocar-se no lugar do biografado, e nesse papel são logo determinadas as fronteiras em relação ao que se seleciona escrever.

“Há uma coisa física, mas às vezes estou a fazer um capítulo e esse capítulo não quer ser escrito, resiste, e a coisa ‘vai-te’ dando indicações. Não é algo místico, mas há coisas que [o escritor] nasceu para contar, como é o caso de Susan Sontag”, afirmou.

Sobre a seleção que o biógrafo faz, deu o exemplo de Clarice Lispector e a opção de uma abordagem pelo lado do judaísmo, atendendo a que o próprio Moser tem essa ascendência, reconhecendo que a abordagem poderia ser outra qualquer.

O mesmo se passa com Susan Sontag e os vários aspetos da sua vida que lhe “interessavam”, como a parte da vida ‘gay’, que era “uma coisa mal entendida”, porque havia muita censura.

“Numa biografia, o encanto de escrever é que está tudo em aberto e pode-se pôr a sensibilidade em mil coisas. O livro é muito denso porque tem essa liberdade que a biografia nos dá”, afirmou.

O escritor brasileiro Lira Neto, residente em Portugal há quatro anos, afirmou que há sempre questões que o biógrafo coloca a si mesmo, como “até onde pode ir a biografia” ou “quais os limites éticos”.

“Toda a biografia é uma espécie de autobiografia, porque, se se entregarem os mesmos documentos a pessoas diferentes, saem biografias diferentes”, porque é o olhar de cada um.

A propósito das suas biografias do ex-presidente do Brasil Getúlio Vargas, afirmou que escolheu os documentos para a escrever, a partir do seu olhar do mundo.

“O jornalista e o biógrafo não entram em conflito porque a biografia é uma zona de fronteira. Quando pensamos nisso, tendemos a acreditar que são áreas limites. Para mim é outra coisa: é uma zona de intersecção, de confluências e influências mutuas. É o contrabando de signos, recursos e artifícios entre jornalismo, história e literatura”, afirmou, sublinhando que não deixa que a imaginação preencha as lacunas da sua investigação.

“Até onde a minha investigação não pode ir tem de estar claro para o leitor”, afirmou.

No entanto, depois de sete anos a estudar e a escrever sobre Getúlio Vargas, admite que, se o encontrasse na rua e pudesse fazer uma pergunta, seria: “Getúlio, afinal de contas, quem é você?”.

Para Benjamin Moser a experiência foi diferente, pois assegura que sabe quem foi Susan Sontag, embora não saiba tudo, e gosta dela.

A 16.ª edição do Literatura em Viagem começou no dia 09 e decorre até domingo, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos.

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