Cinco companhias de Sintra juntam-se em ‘Agamémnon’ de Jaime Rocha

 

“Agamémnon — A heranças das sombras”, uma produção da Efémero, Madrasta, Rugas e teatromosca, é o primeiro texto de uma “Trilogia da Guerra” de Jaime Rocha que a companhia onde é dramaturgo residente, a Musgo, põe agora em cena e também produz, disse à agência Lusa o diretor artístico da associação.

“Filoctetes” e “Aquiles” são os outros dois heróis gregos que fazem partem de trilogia e que a Musgo pretende levar à cena “entre junho e setembro” de 2022 e 2023, respetivamente, adiantou à Lusa Paulo Campos dos Reis, que também encena a peça.

“Gostaríamos muito de conseguir pôr esses textos em palco numa produção conjunta e formal como vamos ter agora, que é uma sinergia histórica no concelho, mas ainda é muito cedo para o garantirmos”, respondeu.

“Agamémnon” junta teatro, dança contemporânea e canto lírico e conta com um intérprete de cada uma das companhias, à exceção da Musgo, que terá mais atores em palco e assume a direção da produção.

Paulo Campos dos Reis, que assina a dramaturgia com Jaime Rocha, sublinhou ainda o facto de se tratar de uma iniciativa “site specific”, a representar ao ar livre, no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, em três locais específicos.

A entrada do museu, um cemitério medieval construído sobre uma vila romana e o pátio árabe do museu são os locais onde decorre a ação do espetáculo que põe em cena heróis da mitologia grega.

A ação da trilogia passa-se na Antiguidade Clássica e tem como pano de fundo a declaração de guerra que a Grécia fez a Tróia, após o rapto de Helena – mulher de Menelau e cunhada de Agamémnon -, pelo troiano Páris.

Em “Agamémnon”, rei de Argos e de Micenas e comandante máximo do exército grego na luta contra os troianos, Jaime Rocha parte da personagem homónima da tragédia de Ésquilo, um dos três textos trágicos que fazem parte da trilogia “Oresteia” deste dramaturgo nascido em 525/524 a.C., “reescrevendo-a”.

Sem fugir “à matriz fundadora” do autor que é conhecido como “pai” da tragédia grega, nem “enviesar outros textos clássicos”, nesta peça Jaime Rocha “acaba por responder também às preocupações, utopias e angústias quer do homem da Antiguidade Clássica, quer do contemporâneo”, precisou o encenador.

Porque o dramaturgo “dialoga com a personagem Agamémnon da tragédia de Ésquilo”, mas traz a “possibilidade de o rei de Micenas não ter sacrificado a sua filha mais velha com Clitmnestra, Ifigénia”. Neste texto, Ifigénia acaba por se revelar ao pai e suicidar-se apenas quando assiste ao assassínio daquele às mãos da mãe.

No texto dramatúrgico que estará em cena no Museu de Odrinhas, “Agamémnon é uma personagem muito fragilizada, que se confessa à filha quando esta se lhe revela antes de cometer suicídio”.

Um texto “intenso” onde não falta a reflexão sobre a ideia de remorso, “não no sentido cristão do termo”, mas “sobretudo no pressuposto, muito caro ao dramaturgo, da ideia de um combatente que tudo sacrifica em nome da sua profissão e do que isso acarreta em termos familiares e sociais”, frisou o encenador.

No texto do poeta, escritor e jornalista Rui Ferreira de Sousa, que assina a obra dramatúrgica com o pseudónimo Jaime Rocha, há também um “discurso de género fortíssimo” sobre o papel das mulheres ao longo dos 10 anos da Guerra de Tróia.

Sobretudo por Clitmnestra, que cobra ao marido “a ausência, o despeito e, em último grau, o sacrifício da filha em nome de uma guerra com consequências devastadoras para todos”.

A primeira peça da trilogia é também um espetáculo que “põe o dedo na ferida resultante da herança de machismo, de patriarcado e de submissão das mulheres”, bem como no “direito ao arrependimento e ao remorso” e que pode “de certa forma equiparar-se ao stress pós-traumático de que muitos combatentes, nomeadamente da Guerra Colonial, ainda sofrem nos dias de hoje”, realçou Paulo Campos dos Reis.

“Agamémnon” vai estar em cena de 02 de setembro a 09 de outubro, com sessões à quinta e sextas-feiras e aos sábados, às 21:30.

A interpretar “Agamémnon” vão estar Miguel Moisés, Milene Fialho, Ricardo G. Santos, Philippe Araújo, Rute Lizardo, Clara Marchana, Catarina Rodrigues, Cirila Bossuet e Raquel Pereira.

A bailarina Clara Marchana e Catarina Rodrigues, no canto lírico, preenchem o elenco da peça, que tem cenografia de Paula Hespanha e Manuel Pedro Ferreira Chaves, figurinos de Nuno Barracas e videografia de Ricardo Reis.

O espetáculo estará em cena no Centro de Artes de Lisboa (CAL), de 27 a 29 de janeiro, estando também “em aberto” a possibilidade de ser representando em Espanha, na Grécia e no Chipre, revelou à Lusa o diretor artístico da Musgo.

 

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