‘Desenterra’ nasce para a dança e em oposição à "obsessão das estreias"

Para descentralizar a oferta artística nacional, repondo espetáculos fora do circuito da programação vigente, a dupla de coreógrafos e bailarinos decidiu resgatar, ou ‘desenterrar’ espetáculos que tiveram pouca circulação, e dar-lhes “uma nova vida” no Centro Cultural Olga Cadaval.

“É todo um problema que envolve as artes performativas, e tendo isso em consideração, muito especialmente na dimensão da dança, na qual estamos engajados. Como há pouca circulação e muita vontade das entidades que programam em ter estreias, novos trabalhos dos artistas, pensámos em contrariar essa situação com este festival, dando também ênfase a projetos que já não estão em circulação, mas que fizeram parte do crescimento artístico de cada criador”, explicaram os curadores, entrevistados pela agência Lusa.

Nessa linha, os três dias de programação do festival, dedicado sobretudo à dança, mas também à performance e teatro, vão recuperar espetáculos como “A Ballet Story” (2012), do coreógrafo, encenador e diretor artístico Victor Hugo Pontes.

“Pangeia” (2016), de Tiago Cadete, espetáculo lúdico-didático para o público juvenil que percorre o universo dos irmãos Grimm – numa viagem sonora e visual em que o palco se transforma num museu imaginário de objetos curiosos, através de sons ouvidos em auscultadores – foi também incluído na programação.

Jonas & Lander juntaram-se como dupla artística quando Jonas Lopes e Lander Patrick se conheceram na Escola Superior de Dança, ambos interessados na fusão de várias linguagens artísticas e com forte ligação à música.

“Cascas d´Ovo” (2013) foi a sua primeira cocriação, seguindo-se “Matilda Carlota” (2014), “Arrastão” (2015), “Adorabilis” (2017), “Lento e Largo” (2019), e “Coin Operated” (2019).

A ideia de criar um festival surgiu em conjunto com a produtora Patrícia Soares, segundo os dois artistas, que optaram pelo conceito de resgatar criações devido à “falta de História, de enraizamento do passado, e da relevância que têm para os movimentos que existem hoje na dança contemporânea”, salientou Jonas Lopes à Lusa.

“Esta situação percorre todas as artes performativas, não só a dança. O facto de serem artes efémeras, de se extinguirem no momento em que são apresentadas, torna difícil manter uma relação com o passado, com as cronologias”, contextualizou Lander Patrick.

O festival também visa “contribuir um pouco para a construção da história da dança contemporânea”, com a apresentação de “peças icónicas mais antigas, como a de Vitor Hugo Pontes [‘Ballet Story’], que, na altura, teve um impacto grande, e que, de momento, se encontra fora de circulação”, exemplificou Jonas Lopes, acrescentando que haverá peças de coreógrafos mais emergentes, mas já com um percurso importante, cujas peças iniciais não puderam voltar a apresentar.

A ideia do evento – que esperam ter continuidade anual em Sintra – também assenta no “desejo de os artistas voltarem a experienciar” as suas próprias criações, “redescobrindo de onde vem o quê, que influências foram importantes, procurando começar a esboçar essa História da dança contemporânea”, sublinhou Lander Patrick.

Questionado pela Lusa se existe uma pressão dos programadores para que os artistas apresentem continuamente novas criações, o artista respondeu: “Não é que haja uma pressão, há uma vontade de apresentar sempre a novidade, uma expectativa muito forte em volta da estreia e do que é novo”.

“A macroestrutura artística encaminha cada artista para trabalhar sempre no próximo projeto. Na criação de cada obra há muito dinheiro público envolvido — um capital artístico e económico – e se todos esses investimentos, carenciarem de uma digressão significativa, não vão ter uma vida que os faça maturar. O artista acaba por criar uma nova obra por uma questão de sobrevivência”, acrescentou, ressalvando que esta fórmula não acontece com todos os artistas, “mas é um cenário notável”.

A dupla faz uma distinção entre as carreiras das peças de teatro e de dança: “O teatro fica em cena bastante mais tempo, quinze dias a um mês, e a partir daí há toda uma jornada da de maturação”, apontam.

Na dança, “não há tantos dias de apresentação por causa do desgaste físico, portanto faz-se a estreia, mais uma ou duas apresentações, e acabou”, descrevem os curadores.

As peças que serão agora apresentadas no Centro Cultural Olga Cadaval “não estão esquecidas, mas tiveram uma circulação reduzida” desde a sua criação, como é o caso de “We are NOT so Pretentions” (2017), dos criadores e intérpretes António Torres, Bárbara Carlos e Maurícia Neves, na qual se destacam três personagens, “num quadrado desequilibrado, que misturam o catolicismo, a pornografia e o ‘fitness’ como meio de superação e de culto in-extremis”.

No último dia do Festival Desenterra, a programação termina com mais uma sessão do espetáculo lúdico-didático “Pangeia”, de Tiago Cadete, a convidar crianças, jovens e adultos a aventurarem-se pelos objetos do universo dos irmãos Grimm.

O Festival Desenterra tem o apoio do Programa Garantir Cultura – Ministério da Cultura e da Câmara Municipal de Sintra, Casa do Valle, Villa das Rosas, e Bosque de Sintra.

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