Encenadora Tania Azevedo defende mais "finais felizes" LGBT 

“Ainda há muitas pessoas que identificam a homossexualidade com trauma, com problemas e uma vida difícil. Essas histórias foram importantes para a história da comunidade LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero], mas eu acho que nós estamos agora num ponto em que precisamos de ouvir histórias em que há ‘Queer Joy’. Precisamos de ver e celebrar finais felizes”, disse à agência Lusa.

É o caso de “But I’m a Cheerleader”, uma adaptação do filme de culto norte-americano de 1999 com o mesmo nome, que pela primeira vez vai ser transformado num musical sob a direção da portuguesa de 30 anos. 

A comédia romântica tem lugar num centro de terapia de conversão, para onde uma adolescente, apesar de ter um namorado, é enviada pelos pais por desconfiarem da verdadeira orientação sexual da filha. 

Porém, em vez de ser “reabilitada”, Megan conhece e apaixona-se por Graham, uma lésbica irreverente que a ajuda na descoberta da sexualidade. 

O filme é emblemático, disse Tania Azevedo, porque “foi o primeiro filme que não trata uma relação LGBT como uma tragédia”, numa altura em que outros filmes bem-sucedidos abordavam romances entre adolescentes heterossexuais.

A produção é também oportuna porque coincide com a discussão de uma proposta de lei para ilegalizar a terapia de conversão no Reino Unido, eliminando práticas para tentar alterar a orientação sexual ou identidade de género de homossexuais, o que países como França, Alemanha ou Canadá já fizeram.

O Bloco de Esquerda apresentou no ano passado um projeto de lei sobre esta questão em Portugal, mas acabou por não avançar por causa da dissolução do Parlamento pelo Presidente da República, que resultou nas eleições legislativas de 30 de janeiro. 

Recentemente, o tema voltou ao debate após a revista Visão ter noticiado que, segundo ex-alunos, o acupunturista Pedro Choy teria dito que fez “um ‘tratamento’ que ‘curou’ um jovem homossexual”, o que o terapeuta desmentiu.  

“É incrível que, politicamente, um filme de há 20 anos continue a ser tão relevante”, salientou Azevedo, que também destacou o documentário “Pray Away”, lançado no ano passado.

Embora já tenha tido várias adaptações para o teatro, esta será a primeira que “But I’m a Cheerleader” terá uma versão em teatro musical, em coprodução com a Lionsgate, o grande estúdio norte-americano de cinema que esteve por detrás do filme. 

O trabalho do escritor Bill Augustin e do músico Andrew Abrams está em curso há vários anos e a adaptação, disse a encenadora portuguesa, implicou identificar “quais são as partes que são mais emblemáticas”, mas também ajustar linguagem e humor desatualizados nos últimos 20 anos. 

“Não é um exercício de politicamente correto, é um exercício de compreensão que a comunidade LGBT evoluiu e é agora muito mais expansiva e inclusiva do que se calhar era no final dos anos 1990. O nosso humor também mudou”, explicou. 

O elenco é representativo da comunidade LGBT, explicou, uma opção que está a dar frutos em termos de desempenho. 

“Não faz sentido estar a contar uma história de amor entre duas mulheres em que as duas atrizes não percebam o que isso é. Não acho que seja uma regra, mas se a história é especificamente sobre uma luta interna de aceitação e revelação, um ator heterossexual dificilmente seria capaz de transmitir esse processo”, defendeu. 

A peça vai estar em cena de 18 de fevereiro até 16 de abril no Turbine Theatre, uma sala com cerca de 100 lugares debaixo dos arcos de um viaduto ferroviário em Battersea, no este de Londres. 

“A minha esperança é que o espetáculo corra tão bem aqui que consigamos ir para um teatro maior. Não há nada parecido no West End, e quero que este espetáculo chegue ao maior número de pessoas, especialmente jovens”, afirmou a portuguesa.

Tania Azevedo, de 30 anos, estudou na Mountview Academy of Theatre Arts, em Londres, onde continuou a fazer a carreira profissional, tendo feito trabalhos na Royal Opera House e King’s Head Theatre, além de ter colaborado em vários teatros musicais no West End. 

Em 2017 foi nomeada para o prémio OFFIE (The Off West End Theatre Awards) de melhor encenador pelo trabalho na produção “Paper Hearts”. 

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