Entrevista a Luis Miguel Cintra: "Prefiro ser Abel a ser Caim"

Em entrevista à agência Lusa, a propósito do livro que é também um balanço de vida, feito de “pensamento, palavras, actos e omissões”, diz que a obra é uma reflexão em que se expõe, porque sempre pensou que, “no fundo, construir uma personagem ou representar” era expor-se a si mesmo, “numa intimidade inventada, quer no cinema, quer no teatro”.

E, no caso do teatro, assegura, é algo “que revela as pessoas umas às outras”, é uma forma “de continuar a viver mais”, nessa afirmação de vida que mantém: “Prefiro ser Abel a ser Caim”.

O que sempre fez sentido para si foi expor-se, “revelar tudo”. “Por amor aos outros, [esta] é a minha maneira de amar a humanidade”, afirma, assegurando que estará presente na apresentação do livro, na quarta-feira, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, na cadeira de rodas em que agora se desloca, face ao “estado de saúde mais fragilizado” em que se encontra.

Habituado que estava a “pensar sempre o que ia fazer a seguir” e a “ter de ir caminhando em frente”, o fim do Teatro da Cornucópia, em 2016, e o agravamento da doença levaram-no, “a certa altura”, a deparar-se com “um grande muro – não há mais nada”.

“Não há mais nada”, sublinha, ao mesmo tempo que se manifesta “pacificado, de certa maneira”.

Luis Miguel Cintra fala de melancolia para dizer que tem “pena de certas coisas e saudades de outras”, mas assegura que “não tem pecados a confessar, nem erros, nem coisas” de que se arrependa. “Antes pelo contrário, acho que todos os erros que fiz, consegui voltá-los a meu proveito”.

“O que me custa imenso, agora que estou separado da vida, é o facto de não ter projeto nenhum, nem poder ter”.

A viver em Gaia, porque na casa de Lisboa dificilmente se movimenta, Luis Miguel Cintra sublinha que optou pela cidade nortenha por ser mais fácil ter acompanhamento.

O que lhe “custa muito neste exílio no Porto é não ter companhia”, assumindo “a culpa” por “só ter falado de trabalho com as pessoas de quem gostava – não é bem verdade, mas foi [assim] até muito tarde”, ressalva.

A opção pela cidade do Norte passa também pela “relação amorosa que manteve” no Porto, com um amigo entretanto falecido no Hospital de Santo António: esta é “uma maneira de estar no sítio onde fui muito feliz com ele”.

Da cidade, não faltam boas memórias: as campanhas de dinamização iniciadas logo após o 25 de Abril de 1974 e o trabalho no Teatro São João, quando ainda era cinema e aí levou “O terror e a miséria do III Reich”, de Brecht; mais tarde, a estreia nesta sala de “Um auto de Gil Vicente”, de Almeida Garrett, e de “O colar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, quando já era o Teatro Nacional então dirigido por Ricardo Pais, assim como de “Pílades”, de Pasolini, mais recentemente, quando a direção artística era de Nuno Carinhas.

Ao Porto liga-o também “a grande amizade construída ao longo dos anos” com o cineasta Manoel de Oliveira (1908-2015).

Com o realizador de “Vale Abraão” e “Non, ou a vã glória de mandar”, aprendeu que “as pessoas não são nada boas, são más, são descendentes de Caim”, aquele que mata o irmão Abel, “por causa da inveja, que é o pecado original”.

Admitindo que chegou a um “fim prematuro de vida”, Luis Miguel Cintra disse ser “nesse estado” que está permanentemente, a “repensar o que é”, para ver se se liberta desse sentimento: “Tenho a vista sobre o Porto e o Douro”, e a escrita e a apresentação do livro “estimularam-me muito”.

A amizade com o cardeal José Tolentino de Mendonça encorajou-o para a edição de “Pequeno Livro Arquivo – pensamento, palavras, actos e omissões”, que o atual prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria Romana, vai apresentar na quarta-feira.

Além da maturidade e do problema de saúde terem contribuído para a sua aproximação à Igreja Católica, como afirma, a “grande amizade de há alguns anos com Tolentino” também reforçou essa decisão.

A tradição católica, porém, esteve sempre presente na família. “O meu pai [professor Lindley Cintra] tinha uma influência enorme do catolicismo na sua vida. […] Portanto também começo a fazer a ponte com os meus antecessores”.

Para Luis Miguel Cintra, “a religião é uma questão de escolha, é um dos campos em que uma pessoa pode ser livre”: “Acredito, não acredito, conforme eu quiser; sou católico, sou cristão conforme eu queira”.

Nesse processo, a encenação de “Miserere”, sobre o “Auto da Alma” e outros textos de Gil Vicente, que estreou em 2010, revela-se essencial no livro. O cenário era “uma sala simbólica” que se assemelhava a um hospício, com personagens alienadas a dizerem um discurso de natureza religiosa. “Peço muito ao espectador”, disse Luís Miguel Cintra na altura da estreia, “peço que descodifique as relações entre as personagens do tipo religioso em relação às humanas. E são [relações] terríveis.”

Agora, em entrevista à Lusa, mais de dez anos depois, Cintra mantém a exigência. “Os católicos deviam juntar-se todos uns aos outros no sentido de transformar a igreja noutra coisa muito mais limpa, muito mais perto da pureza original”, defende, assumindo que “tem de lutar contra a Igreja de séculos passados” que volta a mostrar o seu lado “secular e pouco cristão”, no caso recente dos abusos sexuais.

“Para o teatro, gostava de dar a seguinte mensagem: é uma maneira de continuar a viver em conjunto, portanto, de continuar a viver mais. O teatro é uma coisa que revela as pessoas umas às outras. Não esconde nem faz competição, que é a dominante atual”, assegura.

“Importa que [as pessoas] façam coisas em conjunto e que correspondam a uma atitude sincera umas com as outras. Isso é a coisa mais importante de todas, porque daí é que vem uma alegria de viver que se está a perder. O capitalismo estragou a vida”, conclui Luís Miguel Cintra, que se define numa única expressão: “Prefiro ser Abel a ser Caim”.

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