‘Fazer um alfabeto de aniversários’ em cena no Teatro do Bairro

Gertrude Stein “tem um sentido de humor extraordinário, plasmado na linguagem de uma forma extraordinariamente inovadora”, disse a escritora e tradutora Luísa Costa Gomes à agência Lusa, a propósito da estreia da peça, que fica em cena em Lisboa, até 4 de dezembro.

Para o encenador, “os espectáculos da Gertrude Stein têm uma coisa muito particular que é cada um dos espectadores, cada pessoa [poder ver] um espetáculo completamente diferente”.

Cinco personagens de aspeto masculino, trajadas segundo os códigos de elegância dos ‘sapeurs’ congoleses, vão manipulando aleatoriamente letras de um alfabeto, desfiando histórias em torno da primeira letra de cada nome, e fazem assim a constante da nova criação do Teatro do Bairro.

Luísa Costa Gomes volta a traduzir um texto da autora norte-americana para o encenador António Pires pôr em palco, depois de, em 2018, já o ter feito com “O mundo é redondo”, que viria a vencer o Prémio de Melhor Espectáculo de Teatro da Sociedade Portuguesa de Autores, no ano seguinte.

Numa narrativa disruptiva e sem lógica, cinco atrizes, num cenário despojado onde pontuam espelhos, vão retirando letras de um alfabeto à medida que vão contando histórias muito semelhantes à forma como as crianças as contam e, por vezes, pondo-lhes fim de forma abrupta.

Além de nomes de pessoas e animais, a peça fala ainda de nomes que se reportam a conceitos que, muitas vezes, são “atirados”, ditos de forma ingénua como maneira de resolver a história, criando um efeito cómico – como cómico acaba por ser o nome de dois cães gémeos, com os nomes de Nunca Dorme e Estava a Dormir, e cuja história é contada na peça.

As próprias palavras do texto “absolutamente delicioso”, segundo Luísa Costa Gomes, vão-se prestando a um jogo constante de palavras.

Confessando ter-se “divertido muito” a traduzir o texto de Gertrude Stein, a escritora sublinhou à Lusa que, para si, “é sempre uma experiência de grande festa e de grande sentido humorístico” traduzir textos da autora.

Gertrude Stein “tem um sentido de humor extraordinário, e é um sentido de humor plasmado na linguagem de uma forma extraordinariamente inovadora”, sublinhou a autora de “Ilusão (ou o que quiserem)”.

Tratando-se do segundo texto infantil de Stein, Luísa Costa Gomes observou, no entanto, enfermar de um problema que só os adultos sentem.

“É um texto demasiado adulto para as crianças e demasiado infantil para os adultos”, frisou, acrescentando ter sido esse o argumento usado por editores durante muito tempo para não publicarem o texto, razão pela qual apenas foi publicado a título póstumo.

“Fazer — Um livro de alfabetos e aniversários” é o título da tradução de Luísa Costa Gomes, que também a prefacia, do texto original de Gertrude Stein, a editar em breve pela Ponto de Fuga, com ilustrações de Tiago Guerreiro, disse à Lusa o editor Vladimiro Nunes.

Um texto que acaba por incidir sobre o que significa ter um aniversário e que está cheio de ‘micro histórias’ sempre inesperadas, e de uma imaginação invulgar – histórias que têm como ponto de partida a ligação entre a primeira letra do nome e a data em que essa letra passa a ser a letra do nosso nome.

No jogo em que a peça se estabelece, há também lugar para a brincadeira entre o singular, que cada um é, e o momento em que nasce, e que tem cariz universal, numa espécie de tensão entre cada um ser como é, na sua especificidade e, ao mesmo tempo, ser igual a todos os outros.

Sem constituir um ensaio ou algo histórico sobre o que significa ter um nome e uma data de nascimento, trata-se de uma peça que, para o encenador António Pires, é muito difícil de contar.

“Costumo dizer que os espectáculos de Gertrude Stein têm uma coisa muito particular que é cada um dos espectadores, cada pessoa que olha para o espetáculo vê um espetáculo completamente diferente”.

Os espetáculos a partir de textos de Stein são “textos, imagens, músicas e sonoridades muito abertas”, numa espécie de jogo em que os atores vão fornecendo alguns dados aos espectadores, de forma a que – destaca António Pires – “cada pessoa com o seu imaginário vá criando o seu espectáculo”.

Com um figurino inspirado nos “sapeurs” congoleses — os adeptos da Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes (SAPE) –, António Pires disse ter ido buscar esta ideia ao facto de a companheira de Gertrude Stein, Alice B. Toklas, muitas vezes se vestir com roupas de homem, “o que era uma grande ousadia para a época”.

“Um espetáculo muito divertido e muito coreográfico”, concluiu António Pires sobre a peça que encena.

A interpretar ‘Fazer um alfabeto de aniversários’ vão estar Carolina Campanela, Carolina Serrão, Inês Castel-Branco, Maya Booth e Vera Moura.

Com sessões de quarta-feira a sexta, às 21h30, e aos sábados e domingos, às 18h00, a peça tem cenário de João Mendes Ribeiro, figurinos de Luís Mesquita, música de Guilherme Alves e coreografia de Paula Careto.

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