Figuras rosa insufladas dançam em ato de "tolerância através do corpo"

Essa performance itinerante intitula-se “La grande phrase / A grande frase”, tem produção da Companhia Didier Théron e traz ao Festival Internacional de Teatro de Rua da referida cidade do distrito de Aveiro três bailarinos de anca voluptuosa a lembrar as vénus do Paleolítico, esculpidas em pedra numa evocação de fertilidade ou abundância alimentar.

As figuras de látex chamam-se “gonfles” (palavra francesa traduzível por “inflados”) e constituem o que o fundador e diretor da companhia define como “outra forma de ver o corpo a mover-se e a dançar” — como acontecerá em quatro exibições que, a partir da Igreja dos Loios ou da Praça da República, vão testar volumes e sintonias cromáticas ao longo do caminho.

“Como deuses, os bailarinos têm permissão para entrar e atuar em qualquer espaço público ou privado, o que é também uma mensagem de liberdade. Vendo-os na cidade e seguindo-os pela rua, nós participamos e saboreamos a emancipação face a regras e convenções diárias com que vivemos”, explica Didier Théron à agência Lusa.

Varandas a alturas razoáveis, esplanadas de café, carros estacionados e até os próprios espectadores vão assim alterar-se com a intervenção dos “inflados”, ajudando a demonstrar que “a deformação é um ato de inventividade, é a natureza perturbada, um jogo no modo como se veem as coisas”.

Para esse exercício, a companhia trouxe de França três envelopes com os fatos impermeáveis cor-de-rosa de quatro quilos cada. O enchimento desses trajes demora no mínimo 30 minutos e faz-se com um compressor de ar como o utilizado para encher pneus automóveis, o que justifica que os artistas também se refiram aos “gonfles” como “veículos”.

O rosa dos fatos já foi substituído por diferentes tonalidades noutras apresentações de “La grande phrase”, mas mantém-se como a cor mais emblemática do espetáculo desde a sua estreia em 2013, no Japão, numa escolha determinada por duas razões: “É uma referência à obra artística de Murakami Takashi e também às cerejeiras em flor desse país”.

Cor e forma facilitam, aliás, o humor, como Didier Théron garante com base em testes realizados fora do contexto mais amigável e recetivo das audiências de festivais: “Fizemos experiências nas primeiras performances, atravessando áreas suburbanas não muito hospitaleiras, e estas formas criaram empatias naturais. O redondo sem ângulos, apenas generoso, a mover-se e a mudar, em dinâmica, torna-se engraçado”.

O desafio maior, contudo, é “estabelecer uma ligação ente o movimento dos artistas e os elementos arquitetónicos da cidade”, no percurso entre o ponto de partida e o destino final das performances, assim como “manter o elo entre os próprios bailarinos, de forma a que construam e mantenham o ritmo durante a atuação”.

Mas apesar das reações positivas que “La grande phrase” e idênticas produções francesas vêm gerando em diversos países, Didier Théron afirma que as artes de rua em espaço público representam “uma dimensão que não é valorizada em França” — terra “de académicos” onde diz que há “uma real falta de recursos”.

“Em populações muitas vezes esquecidas ou entre a juventude ignorada, o impacte destes projetos pode ser muito grande, muito forte. A emancipação resultante da arte já não está reservada à elite e há uma verdadeira partilha. No espaço público encontra-se uma audiência que nunca vai a espetáculos em sala e, como essa constitui 90% da população, o potencial é enorme”, realça o coreógrafo.

Esse não é, ainda assim, o principal motivo para Didier Théron se propor agora abrandar a digressão mundial da performance protagonizada pelas vénus rosa. O artista reconhece que os “inflados” assumem “uma dimensão especial no repertório da companhia”, tocando e seduzindo a população “de uma forma que chega a ser desconcertante”, mas quer concentrar mais atuações na sua terra-natal.

A explicação é esta: “Temos um calendário impressionante de espetáculos para fazer na China e na generalidade da Ásia, mas queremos começar a atuar mais em França porque a pegada ecológica das nossas viagens é uma questão a que nós — que usamos o ar — somos sensíveis”.

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