Guillermo Del Toro vence prémio de Carreira da Critics Choice Association

“Disseram-me para me pôr no meu lugar e eu mandei-os lixarem-se”, afirmou o realizador no discurso de aceitação do prémio, referindo-se aos entraves que foi encontrando ao longo dos anos por ser mexicano e querer explorar os cantos mais obscuros da sua imaginação.

“Senti muitas vezes o teto de vidro”, disse Del Toro, sobre os obstáculos que enfrentou no seu ímpeto de mergulhar em géneros como o ‘noir’ e a fantasia. “Toda a minha vida me disseram que ambições eu podia ter”.

O realizador, que tem quase trinta anos de carreira e dois Óscares, sublinhou que há uma reação ao aumento de latinos à frente e atrás da câmara.

“Não é coincidência que este seja o ano em que a nossa pele é demasiado escura para interpretar um elfo, ou o sotaque muito forte para interpretar Marilyn, ou um realizador seja demasiado ambicioso e é criticado por isso”, afirmou. “Nós estamos a chegar, estamos aqui e eles sentem isso”.

Del Toro fazia referência a outros latinos galardoados nesta cerimónia e que foram criticados por não se encaixarem nos moldes tradicionais. Ana de Armas viu o seu sotaque questionado ao interpretar Marilyn Monroe em “Blonde”, Ismael Cruz Córdova foi atacado por interpretar o elfo Arondir em “Os Anéis do Poder” e Alejandro González Iñárritu foi considerado pretensioso pelo seu novo filme “Bardo”.

“Devemos ser ambiciosos, ferozes e desobedientes em relação ao que eles dizem que não devemos fazer”, considerou Del Toro.

Antes dele, o ator Ismael Cruz Córdova, que recebeu o prémio Revelação, falou de forma emocionada de como interpretar o elfo Arondir o expôs a ataques racistas e ameaças de morte.

“Nos últimos dois anos recebi os ataques racistas mais violentos”, revelou o ator, que interpretou o primeiro elfo afro-latino da saga. “O que é um prémio quando acordo bombardeado por violência ‘online’, com pessoas a dizerem que não devia existir, que a cor da minha pele arruinou a história favorita da sua infância, que sentem repulsa por ver alguém como eu no ecrã?”, questionou o ator porto-riquenho. “Um prémio é uma mão no ombro a dizer que me apoiam, é um abraço nos momentos em que sinto que não consigo continuar”, respondeu, agradecido.

Córdova disse esperar que as pessoas se sintam representadas pelo seu trabalho e que os latinos não continuarão a ser invisíveis. “O meu papel no ‘Senhor dos Anéis’ tornou-se maior que um papel, tornou-se num movimento”.

Também a atriz cubana Ana de Armas, que não esteve na cerimónia porque está em filmagens, falou da importância de escapar ao espartilho que limitou o tipo de papéis disponíveis para latinos em Hollywood.

“‘Blonde’ é o filme que eu sempre sonhei fazer”, disse Ana de Armas, que recebeu o prémio de Atriz em Cinema na cerimónia. “Não estou só a falar em termos de interpretar Marilyn Monroe, mas da oportunidade de sentir que estava a libertar-me das etiquetas e ir além dos meus limites”, continuou. “De fazer algo inovador, que provaria a mim e a todos os latinos que podemos fazer tudo se nos derem a oportunidade”.

Este tema foi abordado por vários outros galardoados da noite, desde o realizador Alejandro Iñárritu à atriz Jenna Ortega (“Wednesday”), Cristo Fernández (“Ted Lasso”) ou Brandon Perea (do filme “Nope”), que recebeu o prémio Rising Star em cinema das mãos do realizador Jordan Peele.

“Esta indústria não foi construída para nós, mas aqui estamos esta noite”, disse Perea, cuja audição para o papel de Angel em “Nope” foi tão convincente que levou Jordan Peele a mudar a personagem e o guião por causa dele.

“Continuemos a fazer pressão e a perseguir sonhos”, exortou.

A segunda edição dos prémios Celebration of Latino Cinema & Television, da Critics Choice Association, decorreu no domingo à noite em Los Angeles (já madrugada de hoje em Lisboa).

 

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