Gulbenkian revela percurso de Madalena de Azeredo Perdigão

Madalena de Azeredo Perdigão foi diretora do serviço de música e do ACARTE — Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte, da Fundação Calouste Gulbenkian, e teve um papel importante na reestruturação do ensino artístico em Portugal.

A exposição intitula-se “Madalena de Azeredo Perdigão (1923-1989): vamos correr riscos”, recorrendo a uma frase sua incluída no Manifesto ACARTE, que diz: “Vamos correr riscos, vamos cometer erros”.

Com esta frase, Madalena de Azeredo Perdigão queria mostrar que “só se dá um salto em frente quando se arrisca”, explicou Rui Vieira Nery, musicólogo e comissário da exposição, durante uma visita à imprensa.

Ao criar o ACARTE, “deu o pontapé de saída num jogo que ninguém podia prever”.

Esta mostra de homenagem a Madalena de Azeredo Perdigão, nos cem anos do seu nascimento, que se assinalam no dia da inauguração da exposição, apresenta uma vertente biográfica e retrospetiva, mas também prospetiva, focando as estruturas que lançou e que ainda hoje permanecem.

Desta exposição, que estará patente no átrio da Biblioteca de Arte e Arquivos da Fundação até 20 de julho, constam documentos inéditos, fotografias, programas de concertos, recortes de jornais, edições e partituras.

O primeiro painel é dedicado à biografia de Madalena de Azeredo Perdigão, formada em Matemática pela Universidade de Coimbra, área que “adorava” e que não trocava por outra, mas profissionalmente dedicada à música e ao piano, que estudou desde os primeiros anos.

Um problema numa mão impediu-a de prosseguir, pelo que começou a fazer palestras sobre História da música e a ocupar-se da organização de concertos, tendo afirmado: “já que não podia tocar, comecei a fazer tocar os outros”.

Em 1958 submeteu ao conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian uma proposta de “programação visionária” para o II Festival Gulbenkian de Música e foi imediatamente contratada para chefiar a secção de música, tendo ficado responsável pela programação das edições anuais do festival, no âmbito do qual trouxe a Portugal alguns dos mais destacados nomes da música internacional, como Igor Stravinsky, Mikhail Rostropovitch e Arthur Rubinstein, entre outros.

Em 1962 criou uma orquestra — Orquestra de Câmara Gulbenkian -, consciente de que “era preciso uma orquestra de casa que assegurasse concertos”, independentemente dos internacionais, afirmou o comissário.

“A seguir vem a necessidade de um coro e, em 1964, aparece o Coro Gulbenkian, para fazer parceria com a orquestra”, tendo confiado a direção a Olga Violante, “a primeira mulher a chefiar um grande coro”, acrescentou, sublinhando que “discretamente estava a puxar as mulheres para cima”.

O núcleo documental que se segue é dedicado à dança e ao percurso traçado na Gulbenkian pelas mãos de Madalena de Azeredo Perdigão, que começou por patrocinar o Centro Português de Bailado e a sua primeira companhia de dança, o Grupo Experimental de Ballet, para depois integrar esse conjunto no Serviço de Música, como o seu terceiro agrupamento artístico permanente, criando o Grupo Gulbenkian de Bailado, mais tarde Ballet Gulbenkian.

Outra iniciativa que levou então a cabo foi a promoção da investigação sobre a História da Música Portuguesa, começando a editar obras de música, a catalogar arquivos musicais, a restaurar órgãos históricos, a publicar estudos musicológicos e a recolher instrumentos musicais tradicionais, coleção hoje integrada no Museu de Etnologia.

“Quando é construída em 1969, a sede assume já este compromisso com a música: além de ser um museu, que era uma obrigação estatutária, tem três auditórios”, destacou Rui Vieira Nery, acrescentando que “o programa da nova sede já assume este compromisso de papel ativo e não apenas de espaço para receber eventos exteriores”.

No início dos anos de 1970, surgiu uma “atitude de contestação a Madalena, com acusações de fascismo, que a levaram a demitir-se do cargo de diretora”, para salvaguardar a imagem da instituição.

Rui Vieira Nery afirmou ser “completamente absurda a ideia do fascismo na música” e isso vê-se pelos artistas que escolheu, quando, em 1971, foi nomeada presidente da Comissão Orientadora da Reforma do Ensino Artístico, que incluíam antigos bolseiros da fundação, como José Sasportes, Alberto Seixas Santos, João de Freitas Branco, Arquimedes da Silva Santos, Constança Capdeville e Luzia Maria Martins.

Outro exemplo da sua posição antifascista é apontado por Inês Thomas Almeida, comissária-adjunta da exposição, que evoca a forma como, com “coragem e militância, conseguiu incluir uma peça de Fernando Lopes-Graça” no Festival de Música Gulbenkian, que lhe estava a ser vedado.

Em 1984, com o estabelecimento do Centro de Arte Moderna, Madalena Perdigão foi convidada a dirigir o ACARTE, cujo manifesto original, que arranca com a frase que marca o titulo da exposição, anuncia um programa interdisciplinar, sem barreiras entre culturas eruditas e populares, artes não ocidentais e novas abordagens na educação artística.

O resultado imediato é o arranque da “Nova Dança” portuguesa, que traz a Portugal nomes como Pina Baush, Anne Teresa de Keersmaeker ou Elsa Wolliaston, e lança a carreira de coreógrafos como Rui Horta, Olga Roriz, João Fiadeiro e Vera Mantero, entre outros, acabando com “a divisão entre dança e teatro”, destacou Rui Nery.

As várias artes performativas começaram a cruzar-se e a desafiar-se no ACARTE, mobilizando expressões artísticas várias e os seus protagonistas, encontrando-se aí nomes como os da escritora Hélia Correia com o grupo de teatro O Bando, até à artista Lourdes Castro, passando pelos La Fura dels Baus, o encenador Jorge Silva Melo e a artista e ‘performer’ Marina Abramovic.

A programação musical deste serviço cobria uma variedade de expressões musicais que incluiam os sons de Nusrat Fateh Ali Khan, bombos, fado, música cabo-verdiana e música jazz, que viria a dar origem ao festival Jazz em Agosto.

Madalena de Azeredo Perdigão sempre teve a “preocupação de fazer destas atividades sementes de formação, que servissem de padrão para a formação de talentos portugueses e dos públicos”, explicou a comissário, afirmando que, neste âmbito, foram lançadas as bolsas de estudo, precisamente quando foi chamada a chefiar a comissão da reforma do ensino artístico.

Neste seguimento encabeçou a criação de escolas vocacionais fora dos grandes centros urbanos.

O ACARTE, dedicou especial atenção ao campo da educação artística, tanto para o público infantil como para os jovens músicos, assinalou o comissário, sublinhando que “ninguém teve uma ação tão transformadora na área educativa artística” como Madalena Perdigão.

Inês Thomas Almeida salientou também a sua “visão estratégica, capacidade técnica, mas também diplomacia e resiliência”, na negociação dos projetos que propunha à fundação, como aconteceu com a Orquestra Gulbenkian que esperou dois anos por uma aprovação.

A exposição começou a ser trabalhada em julho do ano passado, e obrigou a uma investigação acurada, visitando milhares de documentos, disse Inês Thomas Almeida, revelando que o que mais a surpreendeu foi a “questão das mulheres”.

“Madalena fazia a afirmação das mulheres no campo das artes sem falar nisso. Não era panfletária”, afirmou.

Exemplos disso são o facto de ter contratado uma mulher negra para ensinar “dança contemporânea africana não folclórica”, no âmbito do ensino artístico, ou ter-se autoproposto, aos 23 anos, como sócia do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Maria Lamas.

Segundo Inês Thomas Alameida, durante todo o tempo em que trabalhou na Gulbenkian, de 1960 até 1989, Madalena de Azeredo Perdigão nunca recebeu um vencimento, fez tudo “por noção de serviço público”.

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