Marcello Quintanilha volta a olhar para o Brasil em coletânea de BD

“O Brasil que eu trabalho nas minhas histórias não é o Brasil que eu vejo. Não é o Brasil que eu trabalho enquanto observador. (…) Nunca trabalho a partir da distância, mas a partir do Brasil que está comigo”, afirmou Marcello Quintanilha, a propósito deste livro, que sai este mês pela Polvo.

Marcello Quintanilha, que tem várias obras de BD publicadas em Portugal por esta editora, esteve esta semana em Portugal a convite do festival AmadoraBD, no final de uma longa digressão internacional depois de ter vencido o prémio de melhor álbum do festival de Angoulême 2022, com a novela gráfica “Escuta, Formosa Márcia”.

O desenhador e escritor vive há duas décadas em Barcelona e as histórias de “Vistam todas as flores” foram publicadas na revista italiana Internazionale e no jornal Estado de São Paulo, com os quais colabora.

Em “Vistam todas as flores” estão “pequenas histórias que dão uma ideia, fazem uma reflexão, problematizam a relação destas pessoas com o seu contexto social e pessoal, a forma como as pessoas se relacionam entre elas, nas suas relações familiares, amorosas, de trabalho, dentro dos paradigmas sociais que se estabeleceram no Brasil no século XX”, disse.

Autor de “Sábado dos meus amores” (2009), “Almas públicas” (2011), “O ateneu” (2012), “Tungstênio” (2014), “Talco de vidro” (2015), “Hinário nacional” (2016) e “Luzes de Niterói” (2018), Marcello Quintanilha não se sente distante do país onde nasceu em 1971.

“O Brasil está todo comigo. Eu vejo o Brasil exatamente da mesma forma como via quando morava no Brasil. Não existe nenhuma mudança, não existe uma distância. Nunca me senti nem a centímetros de distância do Brasil, porque coisas que me interessam no Brasil não estão ligadas àquilo que eu vejo diante de mim, mas àquilo que me constituiu como ser humano. Aquilo que está dentro dos paradigmas sociais que conheci”, explicou.

As histórias de Marcello Quintanilha estão preenchidas com personagens do quotidiano, cidadãos comuns, das favelas, dos bairros sociais, da classe média.

“Não tenho nenhum problema em falar honestamente da humanidade das personagens. A humanidade é uma coisa muito complexa e muito incontrolável. E uma vez que você é capaz de falar da humanidade das personagens, isso lhe dá uma dimensão de honestidade muito grande para dissecar a sociedade em diferentes níveis”, disse.

Sobre as eleições presidenciais de domingo, Marcello Quintanilha não consegue dizer quem vai ganhar.

“Eu detestaria que alguém como Bolsonaro voltasse a ganhar. Seria terrível, um retrocesso, não existe nada pior para o Brasil neste momento do que alguém como Bolsonaro. Independentemente do que aconteça, a única saída para qualquer situação política difícil adversa e contrária ao exercício da política é o exercício da política”, exclamou.

Para o escritor, caso o atual presidente seja reeleito, “não há outra saída a não ser as forças de resistência, as forças democráticas serem capazes de construir uma união capaz de derrotar esse tipo de governo”.

“Se Lula [da Silva] vencer, que é o que eu gostaria que acontecesse, igualmente será necessário que as forças democráticas sejam capazes de formar coligações e permitam mitigar todos os retrocessos implementados pelo governo de Bolsonaro”, adiantou.

Por causa da digressão de promoção do seu trabalho depois do prémio em Angoulême, Marcello Quintanilha disse que não teve tempo para trabalhar em novas bandas desenhadas, mas fecha 2022 satisfeito pelo contacto com os leitores.

“O prémio foi realmente incrível. Todos os prémios sempre te abrem a possibilidade de chegar a públicos. O prémio potencializa essa abertura de uma maneira maior. (…) Eu me agarro a todas as oportunidade de estar perto do público. É um dos momentos mais sublimes para mim, de um autor com o seu público”, reconheceu.

Leia Também: Penguin Random House cria chancela dedicada a banda desenhada

Deixe um comentário