Marcelo recorda Maria de Lourdes Pintasilgo como "mulher de rutura"

Marcelo Rebelo de Sousa falava na inauguração da exposição “Maria de Lourdes Pintasilgo. Mulher de um Tempo Novo” que estará até 31 de agosto no Museu da Presidência, no Palácio de Belém, em Lisboa, e na qual também esteve presente o economista e antigo coordenador do Bloco de Esquerda Francisco Louçã.

“Há que elogiar a coragem do Presidente Ramalho Eanes. (…) Era em torno de perfis que se discutia o tipo de primeiro-ministro mais adequado para o país. E chega o momento em que o presidente [Ramalho] Eanes tem a coragem de escolher uma mulher, e uma mulher de rutura. Estamos a falar de uma realidade com mais de 40 anos, é preciso uma grande coragem”, afirmou Marcelo, que considerou que Pintasilgo “não foi Presidente [da República] mas é quase como se tivesse sido”.

Maria de Lourdes Pintasilgo foi a primeira e única mulher portuguesa a assumir o cargo de primeira-ministra, quando liderou o V Governo Constitucional, entre 01 de agosto de 1979 e 03 de janeiro de 1980, um executivo da iniciativa do então Presidente da República, António Ramalho Eanes.

A exposição, dividida em dois espaços do Museu da Presidência, percorre a vida de Pintasilgo com destaque para o seu percurso político — na qual se podem encontrar, por exemplo, autocolantes da sua candidatura à presidência da República em 1986, com o slogan “A Coragem da Decisão”, ou até o manifesto eleitoral dessa campanha, proveniente do arquivo do historiador José Pacheco Pereira Ephemera.

Fotografias da infância de Pintasilgo, o papel que teve em trazer para Portugal o movimento internacional de mulheres cristãs fundado na Holanda, “O Graal”, e obras que escreveu ou nas quais colaborou são alguns dos temas que também podem ser explorados nesta exposição.

Marcelo Rebelo de Sousa espera que seja possível, desta forma, levar Maria de Lourdes Pintasilgo até aos jovens, para que conheçam o seu percurso.

“Vamos ver se é possível trazer mais jovens para descobrir aquilo que é fundamental e que se está a perder: a descoberta do 25 de Abril, da construção da democracia, a descoberta dos grandes valores da democracia e essa paixão, essa esperança e essa capacidade ilimitada de mobilização que ela tinha”, disse.

Segundo Marcelo, Pintasilgo “arrebatava sem nenhum tique populista”.

“Porque nos populistas é formal, é plástico. Com ela não era plástica, ela era tudo menos plástica. E nesse sentido, é um apelo para que a política seja menos plástica, que mediaticamente tende a ser um pouco por todo o mundo”, acrescentou.

Nascida em Abrantes, em 1930, Maria de Lourdes Pintasilgo foi secretária de Estado da Segurança Social do I Governo Provisório, em 1974, e ministra dos Assuntos Sociais dos II e III Governos Provisórios, em 1974-1975.

Em 1986 foi candidata às eleições presidenciais — numa corrida que contou com Mário Soares (que acabaria por vencer na segunda volta), Diogo Freitas do Amaral e Francisco Salgado Zenha – tendo obtido 7,4% de votos. Liderou, como independente, a lista do PS ao Parlamento Europeu, em 1987, e foi eurodeputada até 1989.

Pintasilgo foi uma das primeiras mulheres a concluir uma licenciatura em Engenharia Química, no Instituto Superior Técnico, foi fundadora, em Portugal, do movimento religioso Graal, militante por diferentes causas cívicas nos planos nacional e internacional — posicionando-se contra a invasão do Iraque em 2003 – e embaixadora de Portugal na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Em 2017, no início do seu primeiro mandato, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou Pintasilgo a título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

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