Morreu o escritor alemão Martin Walser, aos 96 anos

“A sua obra estende-se por mais de seis décadas e marcou decisivamente a literatura alemã”, acrescentou, na sexta-feira à noite, o chefe de Estado alemão, Frank-Walter Steinmeier.

Os canais públicos da televisão alemã ARD e ZDF e o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, citados pela agência de notícias France-Presse, informaram que Martin Walser morreu na madrugada de sexta-feira, em Uberlingen, no sudoeste do país, onde o escritor residia.

Martin Walser, que as Publicações D. Quixote editaram pela primeira vez em Portugal em 1987, está na História da Literatura alemã entre os principais romancistas do pós-guerra, a par de Günter Grass e Heinrich Böll, embora nunca tenha alcançado a projeção internacional dos dois prémios Nobel.

A notoriedade de Walser foi afetada em 1998 pelo discurso de aceitação do Prémio da Paz dos livreiros alemães, um dos mais importantes do país, quando se confessou farto de ser continuamente confrontado com “a vergonha sem fim” do Holocausto nazi, sendo então criticado pela comunidade judaica na Alemanha.

“Quando todos os dias esse passado é apresentado, percebo que algo dentro de mim se opõe à exibição permanente da nossa vergonha”, afirmou então o escritor, alertando para o risco de a memória dos crimes nazis se poder traduzir “apenas num ritual”.

Martin Walser nasceu em 24 de março de 1927, em Wasserburg, formando-se em Literatura, em Regensburg, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, completando ainda os cursos de História e Filosofia. Dedicou o doutoramento a Franz Kafka.

Ainda estudante, iniciou-se como jornalista na recém-formada rádio pública SDR, para a qual começou a escrever peças de teatro.

Destacou-se desde logo com os primeiros contos, publicados em 1955, e com o primeiro romance, “Ehen in Philippsburg” (“Casamentos em Philippsburg”, em tradução livre), surgido em 1957.

Desde o início, a sua obra afirmou-se pela observação crítica e por vezes satírica do chamado “milagre económico alemão” do pós-guerra, visando a hipocrisia e o silêncio comprometido com o nazismo da pequena burguesia e da classe média conservadora.

A sua produção literária é uma das mais extensas da Literatura alemã contemporânea, somando mais de meia centena de títulos, na maioria romance e novela. Escreveu também para teatro, cinema e televisão.

Martin Walser foi distinguido com vários prémios, destacando-se o Prémio Georg Büchner, o mais importante do país, atribuído pela Academia Alemã, e o prémio de carreira Friedrich Nietzsche.

“Acho que a literatura mundial é sobre perdedores”, afirmou numa entrevista hoje citada pelo canal público internacional Deutsche Welle. “É assim que as coisas são. De ‘Antígona’ [de Sófocles], a ‘Josef K.’ [de Kafka], não há vencedores […]. As pessoas são sempre mais interessantes quando perdem do que quando ganham.”

A D. Quixote, do Grupo Leya, publicou em Portugal os romances “Um Cavalo em Fuga” e “Dorle e Wolf – Um Amor Alemão”, do escritor, em 1987 e 1993, respetivamente.

Leia Também: Associação Plateia critica “atrasos incomportáveis” da DGArtes

Deixe um comentário