Mulheres apagadas da história protagonizam festival de cinema Porto Femme

Vindas da América Central e da Europa, das Honduras, de França e dos Países Baixos, as mulheres cineastas com quem a agência Lusa falou, partilham a preocupação de conquistar, através da arte, um protagonismo feminino que “não pode ser esquecido” em lugar algum do mundo, dando voz a outras mulheres, às suas vidas e aos problemas que enfrentam.

A 6.ª edição do Porto Femme – Festival Internacional de Cinema Feminino começou na passada terça-feira, no Batalha – Centro de Cinema, no Porto, onde tem o seu epicentro, com uma programação centrada em 126 filmes, entre curtas e longas-metragens, documentais ou de ficção, de cineastas de 41 países.

As diferenças geográficas atribuem a cada uma das realizadoras presentes contextos políticos, culturais e sociais distintos, mas as histórias que traduzem têm elementos comuns, em muitos casos de abuso e violência, levando-as a trabalhar a sua arte no sentido de dar poder às mulheres e fazer com que possam “sentir-se orgulhosas de quem são”.

A Lusa falou com Andrea Arauz, das Honduras, Lotte Van Raalte, dos Países Baixos, e Bénédicte Charpiat, de França.

O abuso sexual e a violência doméstica sofridos quotidianamente por mulheres nas Honduras são assuntos que fazem parte da obra de Andrea Arauz, que trouxe o documentário “Cuerpos Vivos” ao Porto.

A produtora e realizadora decidiu fazer da sua câmara uma “arma para defender os direitos humanos no país” e relatar a violência vivida na América Central.

De acordo com dados de 2021 do Observatório de Igualdade de Género da América Latina e do Caribe, os números de homicídios qualificados por questões de género nas Honduras foi de 4,6 casos por 100 mil mulheres, a taxa mais alta entre os 11 países da América Latina.

Criada nas Honduras, mas com pais de Nicarágua e El Salvador, Andrea Arauz encontrou no cinema “uma forma de falar sobre a sua mensagem e promover uma mudança no mundo, mesmo que pequena”.

“Principalmente durante a pandemia, os números de abusos sexuais e as taxas de violência doméstica aumentaram muito nas Honduras”, contou a realizadora à Lusa. “O governo não fazia nada e aquelas mulheres estavam sem esperança, sozinhas, tentando sobreviver àquela realidade”.

Foi a partir da vontade de usar a arte como ferramenta de mudança que nasceu “Cuerpos Vivos”, que, ao longo dos seus 17 minutos, acompanha relatos de mulheres hondurenhas que sofreram violência doméstica e, algumas delas, que se tornaram mães jovens, na sequência de violações e abuso sexual.

“Decidi falar com mulheres de diferentes classes sociais e essas mulheres partilharam comigo as suas vidas, os seus traumas, os seus medos e as suas lágrimas, falaram comigo sobre abusos sofridos na infância”, prossegue a cineasta.

Muitas das vítimas não receberam apoio na altura dos abusos e tinham-se tornado jovens mães sem oportunidades e sem certezas quanto ao futuro. Uma realidade vivida há muito pelas mulheres do seu país, que a cineasta centro-americana quis refletir no seu trabalho.

Do outro lado do mundo, em Amesterdão, a realizadora Lotte Van Raalte tinha um objetivo parecido com o de Andrea Arauz, o de “utilizar a arte para falar de igualdade de género e dar poder às mulheres para fazer com que elas possam sentir-se orgulhosas de quem são”. Foi assim que foi até ao México e trouxe o retrato de “Guerreras”.

A trajetória da produtora dos Países Baixos começou na fotografia, mas a vida levou-a ao cinema e, no início deste ano, concretizou o seu primeiro documentário, que apresentou no Porto esta semana.

“Guerreras”, o filme, resultou de uma viagem ao México, a exatamente 9.208,26 quilómetros de distância do seu lugar de origem, a capital neerlandesa. Foi no México que Lotte Raalte conheceu as três protagonistas do seu documentário durante as semanas que passou no país rodeado pelos oceanos Atlântico e Pacífico.

“Nesta viagem, conheci mulheres mexicanas incríveis, e quando voltei tive a clara sensação de que precisava de fazer um filme sobre elas, pois representam o que significa ser uma mulher forte”, disse a cineasta à Lusa.

O ponto de partida era a ligação daquelas mulheres com a natureza, com a ancestralidade e com os seus corpos. Lotte Raalte encontrou, porém, mais uma vez, relatos de abusos sexuais, à semelhança de Arauz, assim como do sofrimento e do silêncio que cai sobre as histórias, mas também exemplos de superação.

“Na verdade, eu queria que o filme tivesse uma certa melodia a partir da natureza, dos corpos, das emoções e também [queria] falar sobre o silêncio. Então eu questionei uma das protagonistas, Alicia, sobre a relação dela com o silêncio […]. E ela respondeu-me que o silêncio era conduzir o poder que as mulheres têm, e contou-me sobre o abuso sexual que tinha sofrido”.

Lotte Raalte garante que não é possível descrever em palavras o que sentiu quando ouviu a resposta, mas foi “muito tocada pelas histórias”, e sabia que “precisava de produzir o documentário”, porque existem muitas Alicias esquecidas em todo o mundo, que utilizam o silêncio como modo de sobrevivência.

Outras realizadoras criaram histórias não só sobre luta política e vivências quotidianas, mas também sobre a dificuldade e obstáculos de se ser uma mulher de 60 anos, no meio cinematográfico, em plena Europa, como é o caso da atriz e produtora francesa Bénédicte Charpiat, que se estreou na realização com “What really matters”.

“A coisa mais difícil é a idade”, garantiu Charpiat à Lusa. “Eu preciso de trabalhar no meu próprio projeto, porque quando se tem 50 anos de idade em França, já se é velha demais”.

O seu filme aborda a questão do que “realmente interessa”. No encontro do Porto Femme Festival, enquanto falava com a Lusa, Bénédicte sorriu muito e deixou a certeza de não se importar com a idade.

E apesar de a temática da sua obra ser muito diferente das abordadas por Andrea Arauz e Lotte Van Raalte, o seu objetivo é o mesmo: “Dar poder às mulheres”.

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