Museu do Calçado expõe "esculturas-calçáveis" de designer alemã

É essa a perspetiva da própria criadora ao definir os pares de sapatos reunidos no museu do distrito de Aveiro como “esculturas calçáveis” em que “caminhar deve ser possível”.

“Quando alguém se concentra no artesanato e na forma, percebe que existem ideias que encontram expressão em ambas as partes — design e arte. Para mim, esses limites são fluidos e é importante incluir ambas as áreas no meu trabalho, o que torna especial o facto de o museu não se estar a focar só no design e no calçado que podem ser usados, mas na minha obra artística toda”, declara Katharina Beilstein à agência Lusa.

A diretora do Museu do Calçado, Sara Paiva, situa as peças concebidas pela criadora alemã “no espectro oposto da tradição industrial sanjoanense”. A tendência dominante é para um designer recolher as suas influências no universo das artes plásticas e então aplicá-las ao processo produtivo, mas Katharina Beilstein analisa os sapatos que a população usa diariamente, estuda o que as pessoas calçam e “dos pés é que retira inspiração para a criação escultórica”.

“Ela começa por criar esculturas que recordam calçado e, mais tarde, criará calçado usável para o qual transpõe toda a técnica da escultura”, diz a responsável pelo museu. “Fá-lo sem constrangimentos ou inibições, combinando princípios fundamentais da escultura com a ideia de funcionalidade, e ampliando a dimensão estética de um produto utilitário”, acrescenta.

Apostada em agradar tanto a designers de calçado como a artistas, a mostra “Katharina Beilstein: Esculturas em Movimento” reúne 16 esculturas, 18 sapatos, oito desenhos e duas peças de joalharia.

Em conjunto, esse trabalho denuncia uma criadora que “não se deixou encantar pelos sapatos enquanto objetos de moda, mas sim pelas imensas possibilidades do calçado enquanto suporte para exploração da forma e da cor”. Dessa deslocalização de deslumbramento resulta “uma linguagem muito própria, que não se enquadra nas categorias convencionais e que explora a interdisciplinaridade do design”.

Socas de tiras em que a palmilha assenta sobre três cilindros de madeira, sandálias com plataformas de centro oco, sapatos sobre dois andares de sola vertical em C e ainda calçado cuja primeira visualização nem permite descortinar onde se enquadra o pé são algumas das criações que levam o público a confrontar-se com a seguinte reflexão: “Um sapato pode ou não ser uma obra de arte? Se à criação do designer de calçado e do sapateiro adicionarmos a do escultor, que tipo de objeto nasce? Podem as técnicas e os materiais da escultura ser aplicados ao calçado?”.

Natural de Bergisch Gladbach, onde nasceu em 1986, Katharina Beilstein já em criança gostava de “desenhar e construir coisas”. Na Academia de Belas Artes de Dusseldorf, ao perceber que a sua imaginação evocava sobretudo objetos tridimensionais, decidiu dedicar-se à escultura, estudando diversos materiais e técnicas com Georg Herold e Thomas Grünfeld.

Em 2017, após formação com o mestre sapateiro Rolf Rainer, inicia a produção de calçado escultórico em cores vibrantes e volumes generosos, fazendo contrastar materiais clássicos da escultura e do calçado, como couro e madeira de tília, com superfícies lacadas e elementos metálicos futuristas.

Para Sara Paiva, essa estética é muito pessoal e distintiva: “Os seus sapatos, de gáspea simples, forma larga e biqueira quadrada, são facilmente identificáveis pelas suas plataformas sólidas e angulosas”.

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